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ANA CECÍLIA
Von TRINA

ANA CECÍLIA
Um dia em Lisboa, com Carlos Leite Ribeiro - 09/03/2000)

          Depois de meses, Gigas de mensagens, borboleta, passarinhos, reportagens bisbilhotices, sondagens e tantas coisinhas mais... aproximava-se o Grande dia! A Marinha Grande! Gente Grande. Grande Carlos! Almirante e Escrivão da Nau Tupiniquim. Cenário: Lisboa

Ato I

          Não houve tempo, nem scanner para o envio daquela foto retocada no Corel, em que a gente fica bem disposta!
          E a preocupação dele era: como faria para reconhecer-me , no Terminal do Arco Cego! Até aqui, coisas da Internet... Nunca tínhamos ouvido sequer a voz um do outro! E ele tentava descrever-se. Dizia-me que tinha 1,55 de altura. Que a careca era igual a de Santo António, que usava bengala e que um dos sapatos tinha um grande salto, para compensar a diminuição da perna. Ainda por cima, era vesgo! (1,80 de altura, ainda muito cabelo, sapatos elegantes, olhar lindo e elegante !). Por mais desconto que eu pudesse dar, por mais generosa que eu fosse ainda faltava muito para que eu imaginasse um Ser mais ou menos normal! Mas isto não me preocupou porque conhecia uma boa parte da massa cerebral do Carlos e isso ele esbanja! E o interessante é que eu sabia achá-lo, mesmo que Lisboa fosse Salvador em dia de Carnaval! Para deixá-lo mais tranquilo, expliquei que apesar de ser 5ª feira, passado o Carnaval, eu poderia ir fantasiada de Globeleza! "Como é essa roupa?" perguntou-me. "A Globeleza se veste de "ela mesma".
          Em Portugal... No Arco Cego, ninguém ia notar! Trocamos diversas informações nada esclarecedoras, sobre os nossos aspectos físicos, marcamos a hora (isto era de verdade!) e pronto! Ficamos na mesma, sem ter a menor ideia de que tipo de pessoa iríamos procurar no Arco Cego. Mas o meu maior problema era: "Quando escrevo ao Carlos (o meu Windows é em Português), eu o trato por tu! Nunca nos falamos por telefone. Como é que ele vai "sintonizar" esse som brasileiro! Vai, com certeza pensar que eu sou outra pessoa!" Não foi problema. Somos ambos "bilíngües em português" ! Entretanto pediu várias vezes para ouvir o meu "ti", "di" e outros "is" brasileiros, que são "Tchis", "Dzis"... Em compensação perguntei-lhe umas coisas do Português: "Por que vocês escrevem "Recepção" mas falam "Recessão"? Ele explicou, mas eu não quis explicar o que é "recessão" no Brasil, até porque quero esquecer este assunto! Confessamos depois, um ao outro, que ambos perdemos a hora, mas ninguém chegou atrasado! Isto é incrível! Ele fez uma viagem de duas horas e tal, de auto-carro, de Marinha Grande até Lisboa enquanto eu de Combóio lavava os olhos pela vidraça da Carruagem, desde a Baía de Cascais até o Tejo...

Ato II

          (Se não sentiram inveja até aqui, comecem a sentir, que já está mais que na hora!) Ele passou por mim e não me viu! Eu também não! Estava escrevendo... Mas levantei um pouco os olhos e o reconheci mesmo pelas costas! Como? Também não sei. Ele convidou-me para o pequeno almoço, reclamando que queria esticar um pouco as pernas. Aceitei, observando que nos iríamos sentar e que não nos levantaríamos dali tão cedo. Sabia o quanto teríamos para conversar! E dito e feito: ficamos muito tempo ali. Não sei quanto. Não uso relógio há dez anos e em tal companhia, não é possível se lembrar das horas... Um dia com Carlos... Jamais poderá caber em 24 horas! Um dia em Lisboa com Carlos... não cabe nem numa semana! Um dia com Carlos... atravessando o Tejo de barco para ir à Almada... não cabe num mês... Um dia com Carlos... no alto da torre do Cristo Rei... Não cabe num ano! Um dia com Carlos... perto de um céu, que faz os olhos se esquecerem de piscar, para não perder qualquer milímetro da deslumbrante paisagem... Lisboa abraçada eternamente pelo Tejo! Não cabe num milénio... Não cabe nos olhos... Só pode caber naqueles braços sempre abertos do Cristo Rei! Só hoje descobri porque as imagens dos Cristos Redentores têm os braços abertos... É para abraçar as paisagens... sem prendê-las... sem tocá-las... O abraço de um Cristo Redentor cabe exactamente na Eternidade...E ainda deu pra cantarolar um Vinicius...

Ato III

          O almoço. É possível estar com fome depois dessa alta dose de elixir da vida? Se for pato com arroz e vinho branco fresco é! Mas o prato principal, era o Carlos. Carlos é um prato de variadíssimas cores e requintados ingredientes. Uma mistura de cultura com molho picante de fino senso de humor, temperado com a essência da Fraternidade mais franca que se possa imaginar. Carlos não é um Ser. Carlos é uma multidão de seres. Carlos é um plural no nome e na vida. Carlos é uma Caravela, em que se pode navegar por terra, mar e ar, por todos os Portugais deste mundo. Seguro e confortável, ele nos remete aos milhões de recantos e encantos da sua imaginação. Este Senhor, de gravata, nem porisso formal, não consegue ser desconhecido de ninguém! Estava ali um "cara", desses que se a gente nunca viu, mas sempre soube que deveria existir. Pela rua, fala com toda a gente. Para uma brasileira, pede café forte, de preferência com pólvora. E com ar de brincadeira, serve o vinho do modo recto ou enrolado.
          Na volta, pouco se pode falar. Não é possível falar quando Lisboa vem entrando pelos poros até inundar a alma da gente. E desembarcamos no Cais do Sodré e ele esperou a minha partida. Despedimo-nos como quem não parte nunca mais. Este dia foi um encontro tão definitivo como é definitiva a Amizade, natural como a Beleza, leve como a Borboleta, e Eterno como o abraço do Cristo Rei. Carlos não sabe, mas ele agora mora no Monte Estoril. Eu o trouxe comigo, na sensação, no sentimento, na alegria que é conhecê-lo. E se bem o conheço... não é de se duvidar que Carlos , O Almirante da Marinha Grande, seja capaz de embarcar para o Brasil antes mesmo que a Nau Tupiniquim consiga atravessar o Mar Oceano. É o seu sonho. Para o Brasil seria uma benção!

PS:- Não reparei se ele era vesgo, não vi se usava bengala, não prestei atenção ao sapato, nem sei se Santo António era careca! Carlos é um "cara" que quando está com qualquer mulher as outras invejam, e não só as coroas. É um misto de charme do Antônio Fagundes, simpatia de Roger Moore, força de Kirk Douglas, inteligência de Charlie Chaplin. É um cavalheiro da moda antiga, da moderna e da futura ... Ana Cecília.