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Os Verdes Louros dessa Fama
Ouro na Barra da Tijuca

 

"OS VERDES LOUROS DESSA FAMA
de Evanilde dos Santos Carvalho Benedito

Comédia

          Entre o drama e a comédia, se dará a encenação deste texto. Os personagens fazem parte de uma família comum, o cenário um quarto de casal. Augusto Alvíssimo e Maria Carmela são os protagonistas, Margarete e Júnior os filhos e Odete a empregada.
         
          Os detalhes e diálogos, indicam a excentricidade e a falta de senso para distinguir entre bem e o mal. Levam vida comum, o pai trabalha, a mãe gasta o tempo em shoppings, a filha advogada, o rapaz surfista, nada fora do normal até o golpe milionário do pai, que troca o trabalho por uma rotina de viagens, negócios e compras de imóveis. Os filhos desconfiam e até chegam a se valer da moral, mas são arrastados pelos pais e acabam apoiando-os. Retrata os bastidores da corrupção, com simplicidade, faz uma avaliação entre o certo e o errado, carregada de crítica aos que agem contra as normas da sociedade.
         
          A tendência é mostrar o tormento da consciência culpada.
         
          Vale um pouco de riso e momentos de reflexão.
         
         
          Perfil dos Personagens "Os verdes louros desta fama..."
         
          O personagens demonstarão muito jogo de ombros, como se quisessem demonstrar o desinteresse dos envolvidos na questão séria de que se trata.
         
         
          Augusto Alvíssimo - homem de negócios, a princípio caráter forte e boa conduta, chefe de família, sério, feição carregada, tom de voz grave, maneiras aristocratas, poderoso, mas apaixonado pela mulher Maria Carmela, realiza todos os desejos, e mostrará que por baixo da pele de bom cordeiro, encontra-se um caráter fútil, moral duvidosa e a falta de escrúpulos, depois de aplicar um golpe financeiro assumirá um jeitão de turistas, manobrado pela esposa. Um personagem cheio de pormenores que fazem a diferença, como a maneira de falar de agir, o olhar, os chiliques, as feições de homem sério e noutros instantes o bobo, o engraçado, o feliz, o triste e o doente.
         
         
         
          Maria Carmela - personagem de forte impacto, forte e decidida do início ao fim, bonita e atraente, mostrará seu caráter volúvel e apreciadora da boa vida, gosta do luxo, viagens e de gastar dinheiro. Na verdade domina a família e toma as iniciativas. Encaminhará a peça para o seu rumo, a marca de sua personalidade são roupas extravagantes.
         
         
         
          Margarete - filha do casal, advogada, defensora de causas justas, será levada a choque com a descoberta do golpe do pai. Mas enfim cederá aos desejos da mãe e fará como querem esquecendo a boa conduta, de executiva básica, a mulher fatal.
         
         
         
          Júnior – irmão de Margarete, é de boa vida, surfista, cabelos oxigenados, fala gírias, vive na sua, parecendo flutuar entre os assuntos da família, somente inteirando-se da situação nas cenas finais, cauções e chinelos compõe o figurino.
         
         
         
          Odete – A empregada, somente sua voz será ouvida, durante a peça, apenas aparecerá no palco na última cena, para o desfecho.
         
         
         
          Anjo Bom – Canário - rosto suave, voz meiga, calmo e simpático.
         
         
         
          Anjo Mau – Urubu - rosto carregado, voz grave e rouca, malandrão.
         
         
          Obs.: Os personagens manterão seu estilo básico, entretanto na última cena a família Alvíssimo passara por um disfarce, uma transformação, num visual totalmente oposto ao qual protagonizaram.
         
         
          " Os verdes Louros desta fama...."
         
          Cássia Poeta
         
          Outubro/2000
         
          O palco escuro, as luzes acendem-se de repente, deixando a mostra o cenário composto por um quarto de casal, luxuoso, a cama exuberante quase ao centro, a televisão com tela voltada para o público, na mesinha de cabeceira o telefone, uma jarra de água e a foto do casal sorridente, com os dois filhos, o armário do lado esquerdo e um grande espelho também de frente para o público, alguns quadros, porcelanas e enfeites completam o ambiente aliadas à cores ousadas.
         
          Entram no palco Maria Carmela Alvíssimo, trajando longa e sensual camisola e Augusto Alvíssimo, de pijama com bolinhas, segurando uma das mãos da esposa, que tenta livrar-se, faz bicos e poses, insistente ele a bajula, Maria Carmela manhosa estanca no meio do palco, iniciando o diálogo.
         
          - Queres a mim, mais que a tu mesmo? (Maria Carmela)
         
          - Sim, sim, minha amada, amo-te com todas as fibras do meu coração. Desejo-te com todo o fervor do meu sangue. (Augusto)
         
          Augusto apaixonado, ajoelha-se, leva a mão até o coração, como se quisesse expressar dor, fecha os olhos sentido a leveza do amor.
         
          - Ah! Meu amor! Por ti daria minha vida. (Augusto)
         
          Maria Carmela reparando os olhos fechados, do marido, torce o nariz solta as mãos, empurra Augusto ao chão e rodopia.
         
          - Se queres a mim, deverás fazer o que te peço! (Maria Carmela)
         
          Augusto faz cara de tristeza, coloca o dedo na boca feito criança.
         
          - Não sei! Não sei, o que me pedes foges das raias do bom senso. O momento não é o ideal. (Augusto)
         
          Maria Carmela aproxima-se de Augusto, toca-lhe com um beijo na testa.
         
          - Oras! Vamos! Vamos! Não sejas tolo, estamos casados há vinte e seis anos, já fizemos bodas de prata e ainda levamos a mesma vida, eu conheço pessoas que de um dia para noite tiraram a sorte grande, ampliaram seus bens e elevarão seu patrimônio instaneamente. (Maria Carmela)
         
          Maria Carmela o ajuda a levantar.
         
          - Pense, poderemos bailar pelos quatro cantos do mundo, começaremos por (Pronuncia com sotaque) Argentina. (Maria Carmela)
         
          Um tango, é ouvido, Maria Carmela agarra Augusto e os dois dançam, percorrendo o palco, fazendo acrobacias, Augusto gira Maria Carmela e quando ela volta aos seus braços ele a beija, ela se solta e entrega-se, mas num ímpeto abre os olhos e diz eufórica.
         
          - Quem sabe a Europa, Paris, Paris... (Maria Carmela)
         
          O tango é substituído por uma valsa, os dois mudam o ritmo conforme o estilo da música.
         
          Maria Carmlea parece desfalecer, mas solta-se dos braços do marido, levanta os cabelos com as mãos e em movimentos suaves fala como se estivesse sonhando.
         
          - Espanha! Ah! (Maria Carmela)
         
          Claro, um ritmo espanhol, Maria Carmela começa a dançar utilizando castanholas que trazia escondida por entre as mãos ou num bolso, sapateando. Augusto a acompanha, mas de súbito estanca, ficando imóvel, por alguns segundos, observa a esposa, senta-se na cama leva as mãos até a cabeça, balança-a negativamente. Maria Carmela continua a bailar até ouvir a voz autoritária do marido, depois a cada palavra vai diminuindo o ritmo dos movimentos, soltando os braços e as mãos, pende a cabeça, parecendo murchar como se estivesse sobre efeito de câmera lenta.
         
          - Maria Carmela Alvissímo! Eu não posso, algo me diz que eu não devo fazer o que me pede, férias, viagem, (começa a falar com mais calma, parecendo sonhar) - lugares turísticos, compras, alto mar, sol, sombra e água fresca. (Muda as feições, chacoalha a cabeça e ríspido, desfaz seus planos) - Não! Não! Já disse que não! (Como se conversasse com o público Augusto dá alguns passos à frente) - Agora não é o momento, sabe quanto tempo eu levaria para economizar todo esse dinheiro?! Para gastar adquirindo imóveis milionários, desfilar de limusine, uma adega invejável. Sabem?! Talvez levasse alguns bons vinte anos guardando todo o meu salário, férias, décimo terceiros, sem tirar um só centavo e ainda aplicando o dinheiro com um juros de no mínimo trinta por cento ao mês. Que absurdo! Em que país se faz um investimento com tanta rentabilidade? (Augusto)
         
          A esposa com olhos triste observa o marido desanimada.
         
          - Augusto, meu amor não fales assim comigo, esse tom agudo da sua voz. (Maria Carmela)
         
          Augusto corre a beijar a mão da esposa, com olhar apaixonado.
         
          - Perdoa-me Carmelinha, perdoa-me. (Augusto)
         
          O filho do casal adentra o palco, trajando roupas esportivas, cabelos despenteados, falando gírias.
         
          - E aí velhos tudo em cima?! Pô meu maneiro hoje sexta-feira, vou descer pegar umas ondas, invadir a praia, sacou. (Junior)
         
          O pai aterroriza-se.
         
          - Que é isso? Velhos? Tudo em cima? Sacou? Mas quando é que esse menino vai aprender a falar corretamente, suas palavras corroem meus tímpanos. (Augusto)
         
          Maria Carmela se aproxima do rapaz faz um carinho em seus cabelos e ralha com o marido.
         
          - Augusto por favor, assim com esse seu jeito você acaba deixando o menino enfraquecido sentimentalmente; você não tem sensibilidade mesmo, não é Augusto. Será que não vê o mal que a causa a cabecinha do menino! (Maria Carmela)
         
          Maria Carmela abraça o filho.
         
          - Seu pai anda irredutível ultimamente. (Maria Carmela)
         
          Augusto indigna-se;
         
          - Ora, ora, eu causo mal a cabeça desse garoto, ou ele que já nasceu com insuficiência de memória, ou faltando um "chips" , qualquer coisas dessas, sei lá. O caso é que esse garoto só sabe me irritar. O quê que é isso? O que, que é isso? (Augusto)
         
          Maria Carmela arregala os olhos, tapa os ouvidos do filho.
         
          - Augusto já chega você está sendo cruel, com o Júnior, pobrezinho. (Maria Carmela)
         
          Maria Carmela, tira as mãos do ouvido do rapaz, vira-se de costas para o marido e sai puxando o filho.
         
          - Vamos tomar o café da manhã, seu pai precisa arejar um pouco a mente. (Maria Carmela)
         
          Augusto irritado prepara-se para falar, mas joga as mãos ao ar. Depois que os dois saem do palco ele conversa sozinho.
         
          - Ah! Quer saber eu vou me preparar para mais um dia de trabalho, afinal sou eu quem coloca dinheiro nesta casa, os outros. Ih! Só sabem gastar. (Augusto)
         
          Augusto dirige-se para o armário, abre a porta como se escolhesse as roupas e troca-se por detrás da porta deixando a mostra as pernas. Depois de vestir a calça e a camisa, Augusto escolhe a gravata, fecha a porta do armário e em frete ao espelho começa a ajeitar o nó. Um ser angelical, trajando uma fantasia de canário, com longas asas, entra no palco pelo lado esquerdo, ficando nas costas de Augusto, sem prejudicar a visão do público o rosto de ambos, com a imagem refletida no espelho.
         
          - Bom dia, Augusto Alvíssimo, vais ao trabalho? (Ser angelical- canário)
         
          Augusto sem enxergar o ser, mas sentindo a presença, balança positivamente, seu rosto parece ficar mais calmo, suas feições transmitem paz e o sorriso aparece nos lábios naturalmente.
         
          - Então ainda estás indeciso, não sabes se obedece a tua consciência ou sedes aos desejos de tua esposa e aos teus instintos?! (Ser Angelical)
         
          Augusto fecha o sorriso ficando pensativo, termina o nó da gravata, sem responder nada, o anjo balança a cabeça e mexa com os braços, (na verdade as asas), passa a frente de Augusto. (verificar posição exata para que não prejudique a visão do público, o espelho certamente deverá conter uma lente de aumento para que projete a visão dos dois em tamanho acima do natural) O anjo ajeita a gravata de Augusto, que mexe o pescoço.
         
          - Eu sei que "conselho" deveria ser tarifado como as chamadas telefônicas, deveria ser mais caro no horário noturno, quando surgem os congestionamento e mais barato durante o dia quando as pessoas raramente se lembram que existimos, sabe Augusto ser anjo, dá um trabalho, já defendo este projeto, na câmara dos anjos celestes, mas ninguém quer me ouvir, eu te digo se assim fosse "o conselho", seria valorizado. (O anjo fala enquanto conserva o ar de piedade) (Canário)
         
          - Mas enfim tenho que fazer a minha parte. Sou tagarela, (balança os ombros) mesmo, obedeces a voz a consciência, liberta a voz da bondade e da dignidade, existentes em teu coração, não deixe os arroubos do instinto, florescer dentro de ti, feche os olhos para luxúria. (Canário)
         
          Neste instante entra no palco a filha do casal, vestida de executiva, portando óculos segurando vários papéis.
         
          - Bom dia papai. (Margarete)
         
          Margarete beija o pai na testa. Augusto retribui com satisfação.
         
          - Bom dia Margarete! Como vai? Vejo que está atarefada, muitos processos? (Augusto)
         
          - Sim papai, ando imersa na análise de processos criminais, notando que os índices de casos com solução satisfatória, estão cada vez mais escassos. A justiça esbarra em pilhas e pilhas de papéis escritos, que amarelam-se com o tempo. (Margarete)
         
          - Ah! Margarete, minha filha orgulho-me de ti, este país necessita de uma reforma, sei que tuas idéias são peças chaves. (Augusto)
         
          Margarete respira fundo e com profundo desânimo lamenta.
         
          - Bem papai realmente o país se faz a marcha lenta, devido a alguns indivíduos acomodados que deixam arrastar processos trancafiados em gavetas por falta apenas de algumas assinaturas ou uma leitura adequada, também qual ser humano seria capaz de ler e reler tantos processos sem fazer uma salada de letras, nomes e casos. (Margarete enche o peito caminha até a frente do palco e diz com voz autoritária) – Mas acredito que um dia subirei a rampa do tribunal, com roupas cibernéticas, na sessão magistral teremos o telão que contará com a reconstituição dos fatos apresentados pela defesa e acusação, testemunhas falarão sobre efeitos de detectores de mentira, os processos serão arquivados sob imagens, o que facilitará a busca quando uma das partes recorrer. Imaginem um lugar onde tudo é informatizado, delegados e policiais prestando depoimentos de como e quando acharão corpos, ou prenderam as vítimas, as reações e o frente a frente, dos fatos. Sim, um linha direta ao vivo. Margarete)
         
          Augusto entusiasmado bate palmas para filha.
         
          - Bravo! Bravo! Estou diante de uma dama da justiça que servirá ao país com lealdade. (Augusto)
         
          Margarete respira fundo, olha para o relógio, apreensiva.
         
          - Pai, preciso de uma carona, meu carro está consertando. (Margarete)
         
          - Claro! Claro, filha te deixo no Fórum. (Augusto)
         
          Augusto apanha o terno, sua maleta e os dois saem do palco.
         
          Maria Carmela entra no palco, folheando uma revista, deita na cama, empolgada.
         
          - Londres. (Maria Carmela)
         
          Folheia algumas páginas a mais.
         
          - Japão, China, Coréia. (Maria Carmela)
         
          Maria Carmela rola na cama, cheia de charme.
         
          - Ah! Viagens, turismo, sol, mar, carro importado, hotel cinco estrelas, jóias, Givancy, Gucci, Yves Sant Laurrent, Nova York. Ah! Umas comprinhas, não fazem mal a ninguém, bem que estou precisando renovar meu guarda-roupa. E o Augusto, com uns ternos tão batidos. (Maria Carmela)
         
          De um salto ela se põe de pé abre o armário retira uma mala, confere os itens.
         
          - "Necessaire", um vestido para noite, pretinho básico. Tudo certo! Falta apenas dobrar o Augusto, mas ele vai ceder, (cara de malandra), imagina só. Numa altura dessas, se valer do coração puritano. Eu hein! Tem gente que se preocupa com tolices, tendo tantas coisas boas na vida. (Suspira) (Maria Carmela)
         
          Maria Carmela rapidamente troca de roupa por detrás da porta, cantarolando um clássico da MPB, em frente ao espelho, coloca nos lábios batom, pega a bolsa e sai.
         
          Silêncio.
         
          Augusto entra no palco desconfiado, olhando para todos os lados, assustado, ouve-se uma voz forte, aguda e feminina.
         
    

;      - Augusto!!! Augusto!!! (somente a voz, que pode ser de Maria Carmela)
         
          Um vento forte sopra no palco. Augusto assustado procura pela voz.
         
          - Quem me chamou? Quem esta aí. Carmela é você? (Augusto)
         
          Nenhuma resposta, Augusto sente um arrepio, estreme o corpo, afrouxa o nó da gravata. A voz não é mais ouvida, o vento cessa. Augusto respira aliviado, retira do bolso do paletó um recibo de depósito, observa o papel, sorri.
         
          - Ah! Quase eu entrego os pontos. Ainda bem que tomei a decisão certa, uma conta com um saldo desses, não é para qualquer um. É isso aí, Augusto Alvíssimo, pode pendurar as chuteiras e viver de sombra e água fresca. (Augusto)
         
          Deita na cama, cruza os pés, leva o papel aos lábios, balança a cabeça e o coloca em cima da mesinha, pega a revista aberta e exclama.
         
          - Nova York, tá aí uma boa opção! (Augusto)
         
          Augusto senta-se na cama, pega o telefone.
         
          - Dona Ana, entregou meu pedido de férias. Recebeu o protocolo? Ahn! Ótimo! Ótimo! Reserve duas passagens no próximo vôo para Nova Iorque. Como pra quem? Augusto e Maria Carmela Alvíssimo, é claro. Está bem! Qualquer problema me avise. (Augusto)
         
          Desliga o telefone respira fundo balança a cabeça negativamente.
         
          - São essas pessoas que fazem o atraso deste país. Conseguem complicar ao invés de facilitar. (Augusto)
         
          Augusto começa a retirar as roupas e caminha para fora do palco, lado esquerdo.
         
          Maria Carmela entra no palco, lado direito, exausta, joga os sapatos, senta-se na cama, levanta os cabelos.
         
          - Ah! Estou exausta! Esse trânsito, shoppings, cabeleireiros, maquiagem. Ah! Ser bonita cansa. (Maria Carmela)
         
          Senta-se na cama, pega o recibo de depósito, pula e dá gritinhos estéricos.
         
          - Um milhão de doláres, na conta do Banco em Genebra... Au! Au! Augusto meu amor, enfim decidistes o melhor. Eu sabia, eu sabia. (Maria Carmela)
         
          Sorri feliz.
         
          - Eu nem acredito! Eu nem acredito! (Maria Carmela)
         
          Augusto entra no palco com os cabelos molhados, tendo a parte debaixo do corpo enrolado numa toalha, deixando à mostra as iniciais AA.
         
          - Olá meu amor. (Augusto)
         
          Maria Carmela exultante, puxa Augusto para junto de si enlaçando-se, deita sobre um dos braços dele, como num passo de tuíste, protagonizam um beijo ardente, após alguns segundos, ainda atordoado, ela comanda a cena, empurra-o para cama, senta-se sobre ele, retira a blusa, com jeito sensual puxa os lençóis, Augusto meio tonto solta-se e diz, com trejeitos próprios.
         
          - Essa é minha mulher. (Augusto)
         
          Os dois entram debaixo dos lençóis, remexem-se depois de algum tempo, Maria Carmela, coloca a cabeça para fora, com os cabelos em desalinho, olhar sensual e voz melosa, pede ao marido.
         
          - Augusto, agora mostra, que você é meu campeão. (Maria Carmela)
         
          Augusto, também descobre a cabeça, apelando melancólico.
         
          - Ah! Tem que ser agora? (Augusto)
         
          Maria Carmela balança a cabeça em sinal positivo.
         
          - Sim, sim, agora! (Maria Carmela)
         
          - Tá bom, tá bom, se prepara, que lá vou eu! (Augusto)
         
          Augusto de um salto sai da cama portando apenas uma cueca minúscula, confeccionada em tecido parecido com o lamê, dourado, dando um efeito de ouro, luvas de boxe, e no meio do palco faz pose de campeão, mostra os músculos, com trilha sonora de fundo, o tradicional tema do filme "Rock".
         
          Maria Carmela vai ao delírio, leva as mãos aos cabelos, com seus trejeitos.
         
          - Ai! Augusto meu amor, você é meu campeão! (Maria Carmela)
         
          Sensual caminha até Augusto, vestida apenas com roupas íntimas. Augusto ergue as duas mãos juntas trançadas ao centro como se exibisse um troféu, levando a mulher ao delírio. No momento em que Maria Carmela prepara-se para agarrar o marido, ouve-se batidas na porta. Os dois estacam, entreolham-se, ouvem a voz da empregada.
         
          - Dona Maria Carmela, seu Augusto o taxi já chegou, disse que foi o senhor que chamou, para ir até o aeroporto, vocês vão viajar? Nem me pediram para arrumar as malas. (empregada)
         
          Maria Carmela radiante pula no pescoço do marido.
         
          - Você já providenciou tudo! Eu sabia que só você faria a escolha certa. (Maria Carmela)
         
          Maria Carmela beija Augusto, estica os lençóis com capricho e correndo, veste-se rapidamente, pega as malas apressadas. Sai do palco em euforia, Augusto meio atônito ajuda a carregar as malas ainda de cueca, na saída do palco ele joga as malas ao chão, volta para se trocar, veste as roupas às pressas.
         
          - Vamos, Augusto não podemos nos atrasar. (Maria Carmela)
         
          - Já estou indo! Já estou indo! (Respira Fundo) – Não quer saber para onde vamos? (Augusto)
         
          - Ah! Isso é um pequeno detalhe o importante é viajar, ver gente nova, lugares bonitos, estar na mídia, o resto são tolices. Eu sei é claro que você tem um excelente bom gosto, não é Augusto. (Maria Carmela)
         
          Ouve-se a buzina de um carro. Augusto sai colocando o terno. O palco fica vazio e a meia luz, o zunir de um avião alçando vôo é ouvido. Margarete e Junior entram em cena.
         
          - Que estranho, papai e mamãe viajar assim de repente, não falaram nada, nem um bilhete. (Margarete)
         
          Júnior joga-se sobre a cama e com jeito maroto fala.
         
          - Ah! Que nada! Os velhos queriam curtir a vida, azaração, vai ver nem tiveram tempo, desencana mana. Qual é? (Júnior)
         
          Margarete balança a cabeça pensativa.
         
          - É tem razão. (Margarete)
         
          Margarete senta-se na cama, Júnior assovia, coça a cabeça, olha para todos os lados, e pega o depósito que estava em cima da mesinha de cabeceira, Margarete não dá importância tira os sapatos massageia os pés, Júnior examina o papel, vira de ponta cabeças, apura as vistas.
         
          - Pô cara que grana, o velho ganhou na loteria e nem bateu um fio, um milhão de dólares. (Júnior)
         
          Margarete levanta e pega o papel assustada.
         
          - Um depósito em Genebra, em nome de Augusto Alvíssimo...(Margarete)
         
          Júnior balança a cabeça.
         
          - É o nosso pai, não é? (Júnior)
         
          Margarete irrita-se, anda de um lado para outro do quarto.
         
          - Um milhão de dólares. Um milhão de dólares. Milagre só pode ser milagre. (Margarete)
         
          - Pô meu o velho ganhou na loteria, olha aí depois eu que sou o difícil na família. Tá na cara. (Júnior)
         
          Margarete repete em voz alta.
         
          - Um milhão de dólares. De onde será que surgiu tanta dinheiro assim. (Margarete)
         
          Júnior já fatigado deita-se, sonolento.
         
          E.... Margarete eu já te disse desencana, quando o velho chegar ele vai nos contar que ganhou na loteria, você vai ver. (Júnior)
         
          Margarete ansiosa balança o papel no ar, irritada, falando e gesticulando com as mãos caminhando sobre o palco.
         
          - Júnior você não se interessa pelas questões da vida; sempre na sua, (Margarete faz movimentos com as mãos, imitando o irmão), você não tem idéia da quantia que estamos falando, esse montante poderia ser usado na construção de dez penitenciárias, dez vezes maiores que o Carandiru, com Central de Segurança sofisticada tipo aquela do filme "A fortaleza", com Cristopher Lambert. (Margarete)
         
          Dá uma pausa, depois como se lembrasse de alguma coisa importante.
         
          - Ou quem sabe construir dois shoppings centers gerando emprego para mais de tres mil pessoas. (Margarete)
         
          Margarete fica impaciente, anda de um lado para outro, Júnior boceja. Ficam imóveis, como se as imagens congelassem. O Canário, "anjo bom", triste e o Urubu "anjo mau", sorrindo, atravessam o palco com um cartaz.
         
          " quase um ano depois......"
         
          Margarete e Júnior voltam a se movimentar caminham pelo palco em círculos enquanto dialogam, as luzes cintilam entre o azul e o laranja, movimentam os braços como se arrancassem do peito para fora, as palavras.
         
          - Essa história do dinheiro ficou mal explicada, viagens, carros, apartamentos, iates, uma vida digna de rei. (Margarete)
         
          Júnior com seus trejeitos.
         
          - Bem... a rotina, o dia a dia, o corre-corre, faz com que não enxerguemos nossos erros e falhas e passamos por cima de tudo e de todos, o dinheiro, o luxo, a fama, a vida boêmia, carros importados, viagens, corrompem nosso eu, explode em nosso peito e ostentamos nosso posto, com volúpia. (Júnior)
         
          Os movimentos em círculo começam a ficar menores, vão se fechando e a cada volta dada diminui o tamanho, para acabar um de frente para o outro.
         
          - Sem exagero, pisoteamos pessoas e perdemos os valores de decência e dignidade, exortamos nosso lado podre, deixando agir livremente nossos instintos, o bem e o mal, o bom e o ruim, misturam-se e já não sabemos distinguir . (Margarete)
         
          - Moral duvidosa?! Não apenas vítimas do infatigável mundo globalizado a qualquer preço. Somos os heróis de hoje e os algozes do amanhã. (Júnior)
         
          Frente a frente os dois tampam os olhos, fecham os ouvidos. Olham para todos os lados e pronunciam juntos, levantando os braços devagar, como se explodissem uma estrela no ar.
         
          - E assim a vida continua, seguimos os passos e não assustamos quando descobrimos casos e pessoas que "Um dia são Senhores no outro lau lau......(Margarete e Júnior)
         
          Ouve-se o barulho de uma porta se abrindo.
         
          - Olá crianças! Odete! Tem alguém em casa! Ah! Cuidado! Cuidado! São bens valiosos, cuidado! (Maria Carmela)
         
          Som de carregadores, arrastando móveis e caixas são ouvidos, Júnior senta-se na cama assustado.
         
          Margarete esconde o depósito entre os seios. Augusto entra no palco equilibrando-se entre malas e sacolas, ouve-se o grito estridente de Maria Carmela.
         
          - Cuidado!..... Este quadro foi comprado num leilão, obra valiosíssima. (Maria Carmela)
         
          Augusto assusta-se, deixa cair os embrulhos, fica com cara de bobo, trajando blusa florida, chapéu, óculos escuros, máquina fotográfica com jeito de turista, vê os filhos e sorri.
         
          - Oi! Crianças, estão aqui? Estavam com saudades do papai e da mamãe, não é... Mas vejam trouxemos muitos presentes. (Augusto)
         
          Os dois filhos entreolham-se.
         
          - Sua mãe está na sala colocando tudo em ordem, vocês não vão ajudá-la? (Augusto)
         
          Os dois entreolham-se novamente, com deboche, Margarete enche o peito de ar, toma a iniciativa.
         
          - Outra viagem de negócios, papai? (Margarete)
         
          Augusto, tira o chapéu a máquina fotográfica do pescoço, os óculos, coloca em cima de um móvel.
         
          - É, (balança a cabeça), muito trabalho... E trabalho, não é fácil, sabem como é, são os negócios. Mas afinal sou um ser humano e nada impede de conciliar o trabalho com um pouco de diversão, não faz mal a ninguém, não é mesmo. (Augusto)
         
          Augusto se engasga, mas tenta disfarçar.
         
          - E quando se tem um milhão de dólares em Genebra, é muito fácil, arrumar diversão, não é papai? (Júnior)
         
          - Estão falando de um milhão de dólares. Ah! Sim, sim, são as vantagens dos negócios, dinheiro bem aplicado. (Augusto)
         
          Margarete e Júnior balançam a cabeça, falam e entreolham-se como se concordassem com o pai.
         
          - Bonificação!!! Não foi! Recebeu bonificação por seus préstimos. (Margarete e Júnior)
         
          Margarete balança a cabeça, negativamente.
         
          - No mês passado tinha sido reservas de um fundo, que gerou lucro mais que o esperado e o saldo positivo além do valor, foi dividido entre os associados. (Margarete)
         
          - Ué! Não tinha sido o quadrado de quinhentos elevado ao dobro do lucro do terceiro mês, com os juros do quinto período.......(Júnior)
         
          Júnior confuso coça a cabeça, Augusto desconcerta-se, dá de ombros e fala como se mencionassem fatos banais.
         
          - Éh... éh..., (dá meias voltas). Vocês com tantas perguntas, estão me deixando confuso. Deixem pra lá, o dinheiro é nosso! Pronto. Ponto final. Quem estaria preocupado de onde vem o dinheiro, curtam a vida. (Augusto)
         
          Augusto anda de um lado para outro, torce as mãos coloca no rosto um certo ar angelical e diz pestanejando os olhos.
         
          - Além do mais, não vamos falar de negócios, deixem isso com o papai, venham me dar um abraço, eu e sua mãe chegamos. Ah! Ah! Estamos aqui, recebi uma bonificação sim, outros investimentos, dinheiro bem aplicado e tudo mais a que temos direito. (Augusto)
         
          Augusto abre os braços e espera os filhos numa ação paternal. Margarete levanta as sobrancelhas, aproxima-se do pai, Júnior olha desconfiado balança a cabeça e caminha para abraçá-lo. Neste instante Maria Carmela entra no palco (vestida talvez com casaco de peles e muitas jóias) estanca assustada com a cena, retira do bolso um lenço e leva aos olhos, começa a soluçar.
         
          - Ah! Que cena emocionante, minha família reunida! (Maria Carmela)
         
          Os três se soltam, Augusto ajeita a camisa.
         
          - Ah! Apenas a vista do nosso novo apartamento em "Miami" me comove mais, do que esta cena. (Maria Carmela)
         
          Os filhos ficam boquiabertos.
         
          - Novo apartamento em Miami? (Margarete)
         
          Maria Carmela sorridente conta as proezas, enche o peito e fala com orgulho, tenta mostrar com as mãos, Augusto respira fundo, coloca as mãos no bolso, balança o pé, joga as mãos ao ar.
         
          - Ah! Que nada sua mãe exagera. (Augusto)
         
          - Sim, sim, minha filha, um cobertura de frente para o mar, no mesmo prédio onde atores famosos de Hollywood, possuem apartamentos. De passagem! É fenomenal! Um estouro! Apresentamos aos amigos mais íntimos, foi um sucesso, todos elogios foram voltados às nossas propriedades e ao bom gosto nas decorações, graças a mim, é claro. (gabando-se pega o casaco, balança os ombros e sorri) (Maria Carmela)
         
          Margarete desconfiada, olha para o pai, que suspira, disfarça e caminha até a televisão, liga o aparelho, o plantão anuncia notícias extras.
         
          - Extra, extra, na CPI, da corrupção, mais nomes foram apontados com o esquema Águia Verde ou seja dólares voando, todos serão convocados a depor para esclarecimentos entre eles estão. (Repórter)
         
          O repórter puxa uma lista quilométrica de nomes e começa a falar.
         
          - Carlos Ivan, Lucinha Gracinha, Augusto Alvíssimo entre outros....(Repóter)
         
          Todos olham assustados para Augusto que perde a cor e começa a dar um chilique, com falta de ar. Margarete desliga a televisão.
         
          - Ah! Ah! Ah! Eu vou Ter um atauqe...(Augusto Alvíssimo)
         
          Júnior que estava calado, como quem descobre um furo, estala os dedos.
         
          - Tá aí velho! Já sei onde arrumaste dinheiro, que jogada eihn! Cara olha aí. (Júnior)
         
          Augusto levanta a cabeça abre os olhos e deixa o pescoço pender, exagerando.
         
          - Ah! Esse menino só abre a boca para me aborrecer. Ah! Meu peito começou a doer, acho que eu vou ter um enfarto. (Augusto)
         
          Maria Carmela corre a abraçar o filho, levando o rapaz para fora do quarto.
         
          - Eu sabia que não ia durar muito esse quadro de família feliz, estava demorando, estava demorando o teto desabar. (Maria Carmela)
         
          Augusto levanta-se de repente.
         
          - Não venha defender esse moleque atrevido. (Augusto)
         
          Margarete desconexa movimenta as mãos.
         
          - Ora! Ora! Papai não dá colocar a culpa no Júnior. (Margarete)
         
          A campainha, toca voz da empregada.
         
          - Seu Augusto, tem um montão de gente aqui na porta, o que é que eu faço? (Odete)
         
          Augusto leva as mãos à cabeça, gritando com desespero.
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          - Se deixares alguém entrar porta a dentro estais na rua, na rua... Entendeu, te vira Odete, te vira. (Augusto)
         
          Maria Carmela entra no palco sozinha.
         
          - Ainda bem que se fazem empregadas como antigamente, a Odete foi lá defender-te a cabo de vassouras e pau de macarrão. (Maria Carmela)
         
          Margarete arregala os olhos e fala em tom melodramático.
         
          - O meu pai, o meu próprio pai, num caso de jornal, notícias populares, como, como? Como vou atravessar as alamedas do tribunal, sustentando a cabeça e julgando crimes banais enquanto o meu pai, falsifica, mente, engana e pousa de Doutor nos jornais, para depois o país descobrir que é um, um... Crimoso. (Margarete)
         
          Maria Carmela balança a cabeça ouvindo o drama da filha baixando a cabeça aos poucos, depois levanta a cabeça com altivez, vira-se enche o peito, volta-se para o palco, balança as mãos e diz como se nada fosse. Augusto reage.
         
          - Criminoso, não. Criminoso, não. Epa! Epa! Pera lá, que que tá pensando essa menina. (Augusto)
         
          Augusto tosse e começa a sentir-se sufocado, joga-se sobre a cama.
         
          Ah! Minha filha não me venha com melodrama, tudo neste país termina em pizza, pastel, cerveja ou laranjas. Seu pai apenas tomou emprestado um pouco de dinheiro, que ia ficar lá parado, jogado pras traças, depois ele ia devolver. (Maria Carmela)
         
          Margarete dá alguns passos e fala desesperada.
         
          - Ah! Mãe você se engana, as pizzas já acabaram, os colerinhos brancos, crises familiares tudo já passou o esquema agora é outro, estamos passando pela fase da caça ao fugitivos fantasmas. (Margarete)
         
          Augusto sente um arrepio percorrer o corpo e desfalece estremecendo o corpo. Maria Carmela e Margarete entreolham-se, dão de ombros. A mãe enlaça o braço da filha.
         
          - Venha minha filha, deixa que a mamãe te explica tudo direitinho. (Maria Carmela)
         
          As duas caminham para fora do palco, mas antes de saírem por completo, Carmela vira para o público, pisca o olho.
         
          - Será que só eu que penso nesta casa. Deus meu. (Maria Carmela)
         
          Uma música fúnebre começa a ser ouvida, a luz no palco fica laranja, o urubu desce no palco batendo as asas num vôo rasante, pousa próximo a cama de Augusto, da voltas ao redor, debochado, levanta um dos braços de Augusto.
         
          - Ah! Pobre Augusto estais só, como o lado podre da fruta, vamos homem reage, também existe gosto bom no sabor azedo. (Urubu - anjo do mau)
         
          Augusto levanta a cabeça olha o urubu e desmaia novamente.
         
          Neste momento o anjo bom (O canário) desce ao palco em movimentos suaves, em cena a luz do palco modifica-se cintilando entre o azul e o laranja.
         
          - Que queres tu aqui? Já não levastes a moral deste homem até os montes mais altos dos aterros sanitários! Deixe-o a sós com a pobre consciência. (anjo bom)
         
          O urubu sorri sarcástico, comenta sobre a fase de Augusto. O anjo bom fica triste, mas depois levanta os olhos para cima.
         
          - Veja só! O canário do reino querendo proteger seu inocente pupilo, não vês que o homem está derrotado, acabado e desmoralizado publicamente, o escândalo, veio ao ar, a farsa foi descoberta. Todos os amigos que o ajudaram vão tirar uma cascaquinha, outros vão sorrir, acharando engraçado, e tantos outro vão odia-lo chamando de ridículo. Mas sempre vão existir aqueles que lucrarão com a sua desgraça. (suspira) É o jogo da vida! (Anjo mau)
         
          - Tua ironia tem suas razões de ser, não adianta lutar contra as raízes da alma e do coração quando estão corrompidos pelos desejos da luxúria, respiram o mau que entranha as fibras e mistura-se ao sangue, corrompe o espírito, expande por toda áurea, ganha estradas e o bem brota e nasce do íntimo e para florir tem que ser regado a cada dia. É hoje em dia todos caminham por largas veredas. Somente um tratamento de choque para salvar essas almas aflitas. (Canário – Anjo bom)
         
          O Urubu cai na gargalhada.
         
          - Ah! Há, há, há!!!! Já sei, já sei, verei a fila das boas intenções aumentar de tamanho? Ou vou recepcionar as almas no purgatório? (Anjo mau – Urubu)
         
          O Canário balança a cabeça negativamente.
         
          - Não, nem uma, nem a outra opção, o alto escalão decidiu, dar mais uma chance para o Augusto. (Anjo bom – Canário)
         
          O urubu não acredita no que ouve.
         
          - Mas uma chance, o que? (Balança ca cabeça, negativamente encolhe os ombros) - Este mundo está perdido! (Urubu)
         
          Os dois entreolham-se.
         
          - Neste ponto concordo contigo. (Canário)
         
          Os dois dão de ombros e juntos pronunciam.
         
          - Vamos ao trabalho. (Ururbu – Canário)
         
          Os dois aproximam-se da cabeceira da cama. Augusto está deitado desacordado. O anjo bom joga um pó colorido sobre Augusto, que movimenta a cabeça.
         
          - Olá Augusto, sou eu seu anjo do bem. (Canário)
         
          Augusto levanta a cabeça, olha para o lado em que o Canário está. O anjo acena com a mão. Augusto balança a cabeça em cumprimento. O urubu, puxa atordoado puxa a cabeça, do púpilo.
         
          - É meu chapa! Não dê ouvidos para esse cara não! Ele quer apenas que você entregue tudo o que conseguiu com anos de esforço e dedicação de mãos beijadas. (Urubu)
         
          Augusto olha para o urubu, ouve e assusta-se.
         
          - Vamos homem reage, que nada esse diz que diz, não é páreo para Augusto Alvíssimo, você tem garra, coragem e um caráter corrupto e além do mais é inescrupuloso. (Urubu)
         
          Com calma, a voz terna do anjo bom tenta aconselha-lo.
         
          - Augusto, irmão, devolva o dinheiro que usaste erroneamente, desculpe-se pelos teus impulsos e mostre que nem tudo está perdido, pague o que deve aqui neste mundo. Lembre-se daí a César o que é de César. (Canário)
         
          O urubu vira a cabeça de Augusto, novamente.
         
          - Oras! Veja só Augusto, entregar tudo, ficar pobre e sem moral, onde estamos esqueceu que vivemos na terra e num mundo capitalista, aqui o homem pode não Ter moral, mas se tiver dinheiro tudo é fácil, imagine. Você sem dinheiro, sem moral, sem teto e sem família, sim porque tua doce Maria Carmela escorrerá pelas mãos, teus filhos te virarão as costas e teus empregados te farão de escravo. Pense Augusto! Pense! (Ururbu)
         
          Augusto olha para os dois.
         
          - Estou sonhando?! É um sonho?! (Augusto)
         
          Augusto joga cabeça sobre o travesseiro.
         
          Maria Carmela entra no palco, os anjos afastam-se.
         
          - Augusto, Augusto. Saiu no jornal, que você está envolvido no maior esquema de corrupção de todos os tempos, estão dizendo que vão confiscar todos os seus bens como garantia. (Maria Carmela)
         
          Augusto senta-se na cama.
         
          - Que nada, eles não podem fazer isso. Liga pro meu advogado. O que eles estão pensando que podem sair assim, falando o que querem, mandando e desmandando. Ah! Comigo não, vão provar, muita coisa. Logo eu, que não devo nada a ninguém, sempre fui honesto, pago minhas dívidas, meus impostos, minhas contas e não tenho nada a temer. Vou doar todos os meus bens ao patrimônio, devolverei tostão por tostão, mandarei avaliar nossos imóveis. (Augusto)
         
          Maria Carmela senta-se na cama e coloca os óculos, para ler melhor o jornal e com voz suave.
         
          - Enlouquecestes! Augusto! (Beija a testa do marido) Deves ser a emoção, ficou doente. Mas eu sei meu amor, eu sei, tuas intenções foram as melhores, eu sei, não se irrite tudo se resolverá, que tal se fossemos até Miami ou para o nosso Chalé nos Alpes, para meditarmos sobre qual a melhor decisão. (Maria Carmela)
         
          Augusto senta-se na cama rapidamente.
         
          - Como? Meu nome está em todos os jornais, como vou sair do país. (Augusto)
         
          Maria Carmela sobe de joelhos na cama, passa a mão sobre os cabelos do marido.
         
          - Ah! Augusto meu amor, como és inocente, você não lê os jornais, não assiste a televisão, não sabe que é chique mudar de identidade, usar nomes falsos e disfarces, última moda. (Mexe no nariz de Augusto) Bobinho. (Maria Carmela)
         
          Augusto interrogativo.
         
          - Será?! Será?! Simples assim. (Augusto)
         
          - Claro, claro não vês que com dinheiro tudo é mais fácil. Escolhe logo para onde quer ir. (Maria Carmela)
         
          - Então não liga para o meu advogado, liga para o contador, que trate de arrumar os passaportes. (Augusto)
         
          - Ah! Que nada Augusto relaxe, eles vão inventar mil e uma desculpas, melhor ligar para o Zé da esquina, aquele da peixaria, da banca de jogo, que atrás funciona o cassino... Por qualquer cinco mil reais, ele arruma tudo, entrega os passaportes e os documentos no aeroporto, até a bagagem ele providencia. (Maria Carmela)
         
          Augusto surpreende-se.
         
          - Nossa Carmelinha como sabes de todas essas coisas. (Augusto)
         
          - Fofocas e fofocas, Augusto! Sabe de vez em quando um entre muitos de nossos amigos precisam de uma saída estratégica. (Maria Carmela)
         
          Maria Carmela abraça o marido, os dois saem contando futricas.
         
          - Está lembrado daquele Paulo, do João, do Fernando, do Antonio, do Pedro, do Luiz, aqueles... Então menino, sabe como eles fizeram... (Maria Carmela)
         
          Tudo fica calmo. De repente a família toda entra no palco disfarçados, Margarete vira mulher fatal, Augusto vestido de mulher, Maria Carmela de homem e Júnior e executivo. Margarete reclama.
         
          - Ah essa roupa, não combina com a minha personalidade. (Margarete)
         
          - Ah! Não reclama, você levou a melhor! (Júnior)
         
          - Chega meninos vamos logo! (Maria Carmela)
         
          Maria Carmela dá um passo a frente.
         
          - Deixa eu ver os detalhes. (Maria Carmela)
         
          Impaciente Augusto, pergunta.
         
          - Não sei, não. Será que vai dar certo? (Augusto)
         
          Carmela arruma o batom e os cabelos cacheados do marido, os tres fazem pose.
         
          - Fica calmo meu bem, vai dar tudo certo. Vocês estão perfeitos! Olha o passarinho! (Maria Carmela)
         
          - Augusto tropeça com os sapatos altos e pergunta tentando equilibrar-se.
         
          Ouve-se o clicar e o flash de máquinas fotográficas.
         
          - E nunca mais poderemos voltar a esta pátria? (Augusto)
         
          Carmela dá alguns passos a frente, balança as mãos no ar, arruma o bigode, imitando um homem ainda coça o saco e fala com voz grossa.
         
          - Não esquenta, Augusto, depois de alguns meses, o povo esquece, surge outro escândalo e assim poderemos voltar com cara de bonzinhos, como se nada tivesse acontecido. (Maria Carmela)
         
          - Aí! Mana até você se acostumou com as falcatruas do papai, tão dentro da lei que andavas. (Júnior)
         
          - Não me fala, não me fala, que eu tenho vontade de vomitar, mas o que eu não faz para ser uma boa filha. (Margarete)
         
          Os quatro saem do palco.
         
          Odete a empregada aparece no palco vestida elegantemente.
         
          - Ah! De Odete a Sharon, virei chique e famosa, cuidar do patrimônio da família. Que gente esquisita hein! Ganhar uma fortuna só para contar uma mentira. Gozado! Antes eu me matava de trabalhar para ganhar um salário de fome, agora para mentir e enganar, ganho uma miséria. (Odete)
         
          O telefone toca. Odete vai atender.
         
          - Alô! Sim Sharon, não, não, aqui não mora ninguém com esse nome, não, nunca oui falar. Foi engano e dos feios. Deve ser culpa da companhia telefônica. Tchau! Tchau! (Odete)
         
          Odete vai até a frente do palco, balança as plumas enroladas no pescoço.
         
          - Ah! A estas horas seu Augusto e a família já devem estar longe, benditos sejam, imaginem me deixar com uma vida de rainha, só para dizer que nunca os vi e nem os conheço, até mudaram meu nome, menino! Pense que chique!!!(Odete)
         
          Novamente o barulho do avião. Odete sai do palco pelo lado direito, os anjos entram pelo lado direito.
         
          - Boa essa chance do Augusto. Por isso todo mundo sai aplicando golpes, nada acontece, reconheça meu amigo a justiça anda mesmo em crise... (Urubu)
         
          - Eu disse, eu disse, pros meus superiores, que esse desfecho era um mau exemplo, mas ninguém me ouviu. (Canário)
         
          Os dois batem a mão um no ombro do outro e estendem o cartaz.
         
          "Fim".
         
          As luzes do palco apagam-se, de repente um foco de luz surge, mostrando um saco de dinheiro acorrentado as mãos de Augusto.
         
          - Não! Não! Eu não entrego! Esse dinheiro é meu, meu! (Augusto)
         
          Os anjos ficam boquiabertos, dão de ombros, pronunciam juntos.
         
          - Pobre Coitado! Vive acorrentado aos verde louros desta fama. (Anjos)