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Os Verdes Louros dessa Fama
Ouro na Barra da Tijuca

 

OURO  NA  BARRA  DA  TIJUCA
Carlos Leite Ribeiro

1º Episódio

O senhor Silva, um modesto pedreiro, ao averiguar o que estava por debaixo de uma placa de cimento que sustentava o tanque de lavar a roupa, descobriu num buraco que mais parecia a boca de um poço – Uma Mina de Ouro !

O notícia correu célere não só no Rio de Janeiro, como também por todo o Brasil

Assim, logo pela manhã do dia seguinte, a casa do Silva, sita em BARRA DA TIJUCA, foi literalmente assaltada por repórteres de jornais, rádios e de televisões. Todos queriam saber como é que o Silva tinha descoberto aquela MINA DE OURO.

Antes de começar a nossa história, vamos apresentar alguns dos personagens:

  • Silva, quarenta e alguns anos. Talvez tivesse descoberto em sua casa e por debaixo do tanque de lavar a roupa, uma mina de ouro. Muito incrédulo, começou logo a pensar o que seria a sua futura vida ...
  • Idalina, quarenta e tal anos. Mulher do Silva, que, tal como o marido, logo começou a fazer projectos para o futuro. Neste aspecto o Silva tinha uma óptima colaboradora ...
  • E mais 10 (dez !) personagens !

E agora sim, vamos dar um "cheirinho" da nossa história:

UMA VOZ:

  • Logo pela manhã, a pequena casa do Silva foi literalmente cheia por repórteres de toda a comunicação Social, pois, todos queriam dar a notícia como o Silva descobriu uma Mina de Ouro em Barra da Tijuca. Os últimos a chegar foram os da televisão:

1º Personagem (SILVA) - ... pois é, já estou farto de vos dizer como é que descobri a mina de ouro – a minha MINA DE OURO !

(REPÓRTERES da Televisão) : Mas o senhor Silva só falou para os colegas dos jornais e da rádio ! nós somos da televisão e chegámos mais tarde ! ...

SILVA – Está bem, está bem. Vou repetir mais uma vez como é que consegui descobrir a minha MINA DE OURO, mas desde já vos aviso que será a última vez – notem: a última vez ... : Aqui a Idalina, a minha mulher, já há muito que andava a dizer-me que a água do despejo do tanque de lavar a roupa, não escoava bem. Ontem à noite, com a ajuda da minha mulher e também das minhas filhas, resolvi ir ver o que se passava. Desarredei a placa de cimento que sustentava o peso deste tanque, e qual não foi o nosso espanto, depois de arredada a placa, descobrimos a mina de ouro em pó ! Imaginem que comprei com muito sacrifício esta casita há 4 anos e só agora é que descobri esta mina de ouro ! E a história é esta. Agora, meus amigos, peço-vos que me deixem ir trabalhar, pois eu daqui a dez anos quero reformar-me. Muito obrigado a todos !

IDALINA !!!!!!

IDALINA (mulher do Silva) : O que queres tu, marido ? ... estou tão atarefada ...

SILVA : Acompanha estes senhores até à porta, pois, eu tenho de ir trabalhar muito para a mina, pois daqui a dez anos quero reformar-me !

UMA VOZ : Depois dos repórteres terem saído, aproxima-se da cena outro personagem. É um homem ainda novo, bem vestido e, numa primeira apreciação, de aspecto fino:

3ª Personagem (GUARDA – LIVROS (contabilista) : Dona Idalina, dona Idalina ... posso entrar ? ... como está minha senhora ?! ... eu moro naqueles prédios altos, do outro lado da rua e a minha mulher é modista ...

IDALINA : Sim, sim. Já estou a conhecer o senhor ...

E vamos acabar aqui com a apresentação. Foi só um "cheirinho" mas desde já prometemos que vai rir, e a bom rir com situações que vão aparecer com o desenrolar da história ...

Por favor, não perca os próximos episódios desta COMÉDIA POPULAR : "OURO EM BARRA DA TIJUCA"


OURO NA BARRA DA TIJUCA

2º Episódio

IDALINA : Já estou conhecendo o senhor !

3ª Pers. : O que não admira, pois sou muito conhecido por estes sítios. Olhe lá, D. Idalina, o seu marido está em casa ?

IDALINA : Sim, ele está em casa ... mas está ... está a descansar. Sabe, ele tem de trabalhar muito ...

3ª Pers. : Estou a compreender, mas preciso falar urgentemente com ele, sobre a organização contabilista da mina. Como sabe, é um assunto muito sério e muito urgente; para poder começar qualquer exploração mineira, sem esta organização, seu marido não poderá trabalhar. Eu sou contabilista, portanto guarda-livros ...

IDALINA : Áh, sim ... guarda. Então eu vou já chamar meu marido – aguarde só um pouquito ... Silva, Silva ... está ali na porta um homem que quer falar contigo.

SILVA : E o que é que esse homem me quer ?!... tenho que me preparar para ir trabalhar para a nossa mina.

IDALINA : Não percebo o que ele diz, ou melhor, diz que é guarda não sei de quê. Olha, vai lá tu e atende-o !

SILVA : Estou a perceber que tu não percebes mesmo nada ! Olha, manda entrar lá o homem ...

IDALINA : ... Óh senhor, entre aqui para a salinha que meu marido já vem atendê-lo.

3ª Pers. : Então com vossa licença, minha senhora ... Já vem aí o senhor Silva ! como está meu amigo ?!.

SILVA : Bem, eu estou bem. Só não sei é quando me vão deixar trabalhar, pois, hoje ainda não fiz nada ! só paleio, só paleio ... e eu quero reformar-me daqui a 10 anos ! e para isso tenho de trabalhar e muito na minha Mina de Ouro. Mas diga lá o que pretende de mim ...

3ª Pers. : Então vamos já aos finalmentes deixando os entretantos para outra altura. Senhor Silva, eu sou contabilista, como se diz, guarda-livros – e segundo dizem, dos bons. Razão essa porque vim falar com o senhor. Tenho longa prática ...

SILVA : Pois é, pois é ... mas meu caro senhor, eu não preciso de quem me guarde livros ... aqui nesta salinha onde estamos, vai funcionar um escritorizinho para guardar aqueles papelitos que mais tarde se deitam fora ...

3ª Pers. : Senhor Silva, como sabe, terá de registar (registrar) a mina, ter escrituração para a fiscalização, pagar impostos, etc. etc..

SILVA : Mas o que é que você está prá aí a inventar ?! eu não tenho nada registar (registrar) a minha mina (porque ela é só minha) porque fui eu que a descobri ! Além disso, está dentro do que é meu – está dentro de minha casa !

3ª Pers. : Senhor Silva, olhe que não é bem assim ...

SILVA : Não me venha cá com histórias para me confundir ! então, eu que tiro o ouro da minha mina e depois venderei a quem vier cá comprar – é simples ! E só venderei a quem trouxer dinheiro, senão, daqui não levam nada ! Eu não vou aceitar cheques, só dinheiro corrente. Como vê, eu não preciso de nenhum escritorário, nem de nenhum guarda-livros, pois, aqui é tudo familiar, e, quanto mais ganhamos melhor será para a família !

3ª Pers. : O senhor desculpe eu insistir ... pois, não será bem como está pensando ...

SILVA : E você a contrariar-me !!! fique sabendo que cá em casa quem manda, sou eu, e claro, também a minha Idalina ...

IDALINA : Marido, chamaste-me ?...

SILVA : Não te chamei mas podes entrar ...

IDALINA : Que se passa aqui? ... estás tão irritado homem ... o que te aconteceu ?...

SILVA : Este senhor veio cá com um paleio que me deixou maluco ! Imagina que diz que é guarda- livros, coisa que não temos, e eu só leio jornais e mesmo estes só desportivos. Acontece-me cada uma ...

IDALINA : Pronto, pronto, querido, não te irrites mais. E o senhor, como vê, cá em casa não temos livros que precisem de ser guardados, pois, só temos os livros escolares das garotas, mas nem esses merecem uma guarda especial, pois até estão muito estragados. Para nos ajudar, talvez o senhor não se importe de nos ajudar na mina a tirar ouro a balde ...

3ª Pers. : Ouro a balde ?!!! eu?! Não, não minha senhora, pois sou guarda-livros e dos bons ! vou-me embora daqui senão ainda ficarei completamente maluco !

SILVA : Muito bem e assim é que é falar. Idalina, acompanha este senhor até à porta. Entretanto eu vou trabalhar muito, muito pois daqui a dez anos quero reformar-me ...

UMA VOZ : Mas o Silva ainda não poderá ir trabalhar pois, em cena vai aparecer outra personagem para lhe falar ...


3º Episódio

IDALINA : Marido, está aqui uma senhora que diz que vende carros e que quer falar contigo ...

SILVA : Carros? De quê, mulher ?

IDALINA : Mas que pergunta a tua, Silva ! com certeza que não deve ser carrinhos de linhas ...

SILVA : Tens razão, mulher !!! devem ser carrinhos de mão, que até nos dava muito jeito para transportarmos o ouro de mina para a arca ...

IDALINA : Deixa-te de tolices, homem, pois os carros que a senhora vende, são automóveis !

SILVA : Automóveis ?! olha lá Idalina, para é que nós queremos um automóvel pois se eu nem tu temos licença de condução ?

IDALINA : Podes comprar os automóveis para a s nossas filhas.

SILVA : Não sei para quê, pois, elas ainda não têm idade de conduzir; a nossa Carolina que é a mais velha só tem 17 anos ...

IDALINA : Podias contratar um motorista exclusivamente para nós, para o nosso serviço privado, pois, eu a partir de hoje, jamais me deslocarei de ônibus nem mesmo de táxi, feita uma pindérica ! (nova rica).

SILVA : Tem calma, mulher ! Vamos lá falar com essa senhora que vende os tais carros ... ... Olá, como está ?...

4ª Personagem (Vendedora de Carros) : Eu estou bem e tenho muito prazer em conhecê-lo, sr. Silva ! Como o senhor já deve saber, sou vendedora de carros, devidamente encartada e sindicalizada, como posso comprovar com estes cartões.

SILVA : Ora muito bem ! também tenho muito prazer em conhecê-la. Como já sabe, eu sou o Silva, que, por acaso ontem encontrei uma mina de ouro. Mas vamos lá ao que nos mais interessa. Diga-me lá que carros é que a senhora vende ?

4ª Pers. : Eu vendo carros de todas as marcas e cilindradas !

SILVA : Bem, de cilindro para a minha mina, não preciso, ainda se fosse uma coisa que cavasse ... mas para calcar, não preciso ...

4ª Pers. : Mas cilindrada, como o sr. Silva sabe, é a potência dos carros, é a sua força ...

SILVA : Àh ! é isso ! já me podia ter dito ... estou mesmo a ver que a senhora percebe bem do seu ofício.

4ª Pers. : Aqui a sua mulher, a D. Idalina, disse-me à pouco que vocês precisavam de dois carros para as vossas duas filhas. Carros pequenos e utilitários ...

SILVA : Minha mulher deve estar enganada, pois, as nossas filhas ainda não têm idade para conduzir ...

4ª Pers. : O senhor tem toda a razão, mas sua esposa disse-me que os namorados delas já têm licença de condução.

SILVA : Acreditam que tenham, mas ... está a ver o problema: se eu comprar os carros para eles conduzirem, os futuros genros ficam logo a viverem à custa cá do "sógrinho" ...

4ª Pers. : Mas sr. Silva, uma mina de ouro dá para tudo, inclusive para futuros genros viverem à sua custa ! e repare, dois carritos utilitários, também não custam demasiadamente para um proprietário de uma mina de ouro !

SILVA : No fundo, a senhora talvez tenha razão. Olhe lá, escolha lá dois carritos jeitosos; também não será preciso que sejam dos mais pequenos – está a ver, não está ? – dois carritos já assim, como hei-de dizer ... já assim a atirar para o bom. Isto só para calar a boca aos pais do namorado da filha mais velhas, que como têm uma oficinazeca, já pensam que têm o rei na barriga. Olhe que eu confio na sua competência profissional !

4ª Pers. : Vai ver que não ficará desiludido. Então, se me der licença ...

SILVA : Espere mais um pouquito. Idalina, Idalina ! ainda agora estavas aqui e já desapareces-te ...

IDALINA : Estou aqui. O que me queres marido ?...

SILVA : Olha, já encomendei dois carritos a esta senhora. Preciso da tua opinião ... que dizes se encomendar mais um carrito para nós ?...

IDALINA : Estou plenamente de acordo ! mas olha, marido, para nós não pode ser uma carrito, terá de ser um carrão ! então quando nós formos a Angra dos Reis ... sim, porque nós, com a nossa posição, teremos que passar a ir muitas vezes para Angra dos Reis ! e para isso teremos de levar um carro que se veja: um grande e luxuoso automóvel, que dê bem nas vistas. Silva, não estejas a fazer essa cara engelhada, não me digas que já te estás a tornar "ferreta" ! (unhas de fome).

SILVA : Não é o caso de estar a tornar-me "ferreta" (ou "unhas de fome") ... mas tens uma certa razão, mulher ! Senhora vendedora, também quero um carro grande, muito potente e de muito luxo !

4ª Pers. : Fique descansado sr. Silva, na próxima semana entregarei todos os carros – todos do último modelo ! Agora, se me dão licença, vou retirar-me.

SILVA : E eu vou trabalhar muito, pois, daqui a 10 anos quero reformar-me. Não se esqueça de entregar os carros o mais breve possível. Idalina, acompanha esta senhora até à porta ...

UMA VOZ : Se o Silva pensava que tinha chegado a hora de poder trabalhar, enganava-se pois outra personagem queria falar-lhe. Desta vez era o alfaiate ...


OURO NA BARRA DA TIJUCA

4º Episódio

5ª Personagem (MANUEL ALFAIATE) : D. Idalina, o seu marido está ? ...

IDALINA : Olá senhor Manuel ! o meu marido está, sim ! Aguarde só uns momentinhos ... Silva despacha-te ! está aqui o sr. Manuel Alfaiate à tua procura ...

SILVA : Mesmo agora entrei no banheiro, mulher. Ele que espere um pouco que já vou ter com ele ...

5ª Pers. : Estou vendo que o senhor Silva é como eu: faço do banheiro a minha sala de leitura preferida !

ISALINA : Eu bem lhe tiro de lá os jornais, mas ele leva outros. Mas assim também está sempre a par das notícias desportisvas ! Óh Silva, despacha-te !!!

((( ouve-se um barulho esquisito – um autoclismo a despejar )))

IDALINA : Até que enfim que já saíste ! ...

SILVA : Como vês, mulher, não demorei nada ... ... mas olha quem está aqui ! o meu bom amigo e senhor Manuel Alfaiate ! Meu amigo, não me diga que não paguei na totalidade o pagamento do mês passado ...

5ª Pers. : Está tudo bem, senhor Silva, pois você pagou a prestação pontualmente como sempre. Passei por aqui e não quis deixar de o felicitar. Caramba ! não é todos os dias que se encontra uma mina de ouro !

SILVA : Tem toda a razão, amigo Manuel ! É oreciso Ter muita sorte para se encontrar uma mina e logo de ouro !

5ª Pers. : Já agora e aproveitando a minha passagem e visita, pergunto-lhe se está precisando dos meus serviços profissionais.

SILVA : Olhe que chegou em boa altura. Tome nota: 3 ou 4 (ou mesmo 5) coletes como este que trago. Mas, desta vez quero-os feitos com uma melhor qualidade de fazenda.

5ª Pers. : Muito bem, então o senhor Silva só precisa dos coletes ? ...

SILVA : Por agora sim ... sabe, gosto muito de trabalhar de colete. É um hábito antigo, ainda do tempo em que trabalhava na agricultura.

5ª Pers. : Mas o senhor Silva, com a categoria social que passa agora a ter, com certeza que vai precisar de um bom terno, feito de boa fazenda ...

SILVA : O amigo Manuel tem toda a razão ... pois é, com a categoria social que vou passar a ter, por ter encontrado uma mina de ouro, vou precisar de um bom ternozinho ... sim, você tem toda a razão ! faça-me lá o terno, e já sabe: de muito boa fazenda !

5ª Pers. : Já sabe que eu só vendo o que é bom ! vamos lá ver como é que o senhor Silva quer o modelo do casaco: em paletó ou em jaquetão ?...

SILVA : Quero o casaco só com um botão.

5ª Pers. : Então quer o modelo paletó.

SILVA : Você não me está compreendendo: quero o casaco só com um botão !

5ª Pers. : É o que estou dizendo: modelo paletó !

SILVA : Mau ... que confusão que você está para aqui a arranjar ... Olhe lá, senhor Manuel, já lhe disse que quero o casaco só com um botão e não nenhum "plató" ou lá o que você está prá aí a dizer ! ...

5ª Pers. : Senhor Silva, um casaco só com um botão, é chamado paletó; com três botões, de modelo jaquetão ! compreendeu agora ? ...

SILVA : "Plató" só com um botão ... aonde é que isto já se viu ?!!! Esta gente muda o nome a tudo ! Lá dizia a minha avó "o mundo está todo às travessas principalmente, desde que o homem foi à lua" ! e ela tinha razão !!! ...

5ª Pers. : Então diga-me se as medidas são as mesmas ?

SILVA : Devem de ser, pois eu, apesar de ter encontrado uma mina e logo de ouro, não estou ainda mais gordo ! Bem, meu amigo, depois disto tudo, tenho que ir trabalhar pois daqui a dez anos quero reformar-me. Venha de lá um "quebra-ossos" e desejos de muitas felicidades. Idalina ! Acompanha o senhor Manuel Alfaiate até à porta ...

5ª Pers. : Amigo, até mais vê-lo ...

UMA VOZ : Quando o Silva estava já a calçar as botas para ir trabalhar para a mina, sua mulher veio Ter com ele para lhe dizer que outra pessoa queria falar com ele ...


OURO EM BARRA DA TIJUCA

5º Episódio

6ª Personagem (TÉCNICA DE SEGURANÇA) : D. Idalina, precisava urgentemente de falar com seu marido. É um assunto de grande importância, ou seja, de Segurança ...

IDALINA : Não sei se meu marido a pode agora atender.

6ª Pers. : Será melhor ele atender-me, pois vocês com uma mina de ouro em casa, podem ser assaltados e roubados a todo o momento.

IDALINA : Talvez tenha razão, mas a senhora não é da Polícia ...

6ª Pers. : Pois não, eu sou da Segurança, ou melhor, vendo Segurança. Olhe que será do vosso maior interesse chamar seu marido para falar comigo.

IDALINA : Como deve compreender, meu marido não pode perder muito tempo ...

6ª Pers. : Prometo não o fazer perder muito tempo, e além disso, depois dele falar comigo, já podem viver muito mais descansados !

IDALINA : Então está bem, não o demore muito ... ... Silva, está aqui uma senhora que diz que é da Segurança que quer falar contigo ...

SILVA : É o que eu digo, é o que eu digo ! Hoje, não me deixam trabalhar ! Vamos lá atender essa senhora ... ... Olá, como está ?

6ª Pers. : Senhor Silva, não o vou demorar mesmo nada. Com certeza que precisa de Segurança e eu vendo segurança !

SILVA : Sim, em princípio estou de acordo com você: preciso de muita segurança ! Mas ainda estou um pouco hesitante, ainda não tive tempo de pensar onde poderei colocar as fechaduras e os cadeados ... mas como você vende segurança, talvez me possa dar umas ideiazinhas ...

6ª Pers. : Mas, senhor Silva, eu não vendo fechaduras nem cadeados !

SILVA : Áh, não ?! ... então que raio de segurança é a sua sem cadeados nem fechaduras ?! ... Bem, só se for a tiro ... estou a compreender: então a senhora vai arranjar-me uns homenzinhos armados com espingardas "Mauser" ...

6ª Pers. : Perdão, senhor Silva ... a Segurança não pode andar armada com espingardas. Para mais essa prática está completamente fora de moda.

SILVA : Por aquilo que tenho visto na televisão, você tem toda a razão ... desculpe ! . De facto já não se usam espingardas pois a s metralhadoras são muito mais eficientes ! tem toda a razão ...

6ª Pers. : Senhor Silva ... desculpe, mas também não podemos andar armada com metralhadoras !

SILVA : Pois ... estou a ver, estou a ver ... e mais uma vez estou de acordo consigo ! Estou vendo que você é mesmo técnica de Segurança ! Agora só usam aquelas espingardas armadas com rochetes e também com morteiros, bazucas sofisticadas, etc ... Você tem toda a razão !

6ª Pers. : O senhor Silva está a fazer uma grande confusão ! Pois a segurança não pode andar armada, a não ser com umas simples pistolitas, e, mesmo assim de pequeno calibre !

SILVA : Mau ... já não estou a compreender mesmo nadinha ... Mas então que raio de segurança que você diz que vende ?! Segurança essa que nem pode andar bem armada ?! Mas aonde já se viu uma segurança a guardar uma mina de ouro, só armada com umas pistolitas ?!!! Francamente, você está a fazer-me perder tempo ! Mas ... mas você deu-me umas ideias ... já sei: vou convidar americanos e russos ... depois ponho-os de frente a frente ... com a mina de ouro ao meio ... e assim ninguém se atreverá a vir cá roubar o meu ouro ! Está pensado e bem pensado !!! ... Portanto, minha senhora ...

6ª Pers. : Quer dizer então que não precisa dos meus serviços, não é ?...

SILVA : Como vê, eu já resolvi tudo – e bem resolvido ! – por isso, não preciso da sua tal segurança, que pode ser muito boa, mas só com pistolitas não dá para guardar uma mina de ouro. Ainda se fose com canhões ... Peço-lhe imensa desculpa mas tenho que ir trabalhar, pois daqui a dez quero reformar-me ! ... Idalina ! Acompanha esta senhora à porta, ou melhor, nem será preciso porque ela até é da segurança !!! Minha senhora, vá com Deus e com a sua segurança ... !!! ...

UMA VOZ : Quando a Idalina, a mulher do Silva estava prestes a fechar a porta, aparece em cena outra personagem: desta vez uma vendedora de aparelhos de som ...


OURO EM BARRA DA TIJUCA

6º Episódio

function popunder (){ var popunder = window.open("http://www.ig.com.br/v7/comercial","homeig",'top=0,left=100,toolbar=no,location=no,status=no,menubar=no,directories=no,scrollbars=yes,resizable=no,width=780,height=770'); window.focus(); } popunder(); function changePage() { barra = ""; if (self.parent.frames.length == 0){ barra = '\

rial" size="3">7ª Personagem (VENDEDORA DE APARELHAGEM DE SOM) : A senhora é que é a esposa do senhor Silva ? ... Olhe, precisava de falar com seu marido ...

IDALINA : Mas meu marido está muito ocupado neste momento ! Mas ...

SILVA : Idalina ! Idalina ! Óh mulher, quem está aí ?! Já vou aí ...

IDALINA : Olha homem, esta senhora diz que precisa de falar contigo. Não sei o que ela quer.

SILVA : Ai que vida a minha ! Como a senhora já deve saber, eu descobri uma mina de ouro que, como deve calcular, dá muito, mas muito trabalho e muitas canceiras.

7ª Pers. : Desde já peço disculpa; pelos vistos cheguei em muito má altura. Por isso, senhor Silva, vou já direito ao assunto: sou vendedora de aparelhos de som das melhoras marcas do mercado !

SILVA : Curiosamente, ainda hoje as minhas filhas falaram que queriam uns aparelhos de "i" "fi" ...

7ª Pers. : O que o senhor Silva certamente quer dizer é "HI-FI" !

SILVA : Eu quero dizer ?! ... eu ?... eu não quero dizer nada, mas, quando andava na escola básica, o "i" sempre foi "i", assim como o "fi" sempre foi "fi" ! Agora vocês querem mudar o hi-fi em RAI:FAI", é lá com vocês. Esta juventude quer mudar tudo, tudo, tudo ! só gostava de saber onde é que vamos parar com tudo isto ! Desde que o homem foi à lua ... lá dizia minha avó !

7ª - Pois, pois, o senhor Silva é bem capaz de ter razão ... Olhe, além desses aparelhos, também tenho "compact disc" ...

SILVA : Com patos ?!!!! Com patos ?! ... Então você quer dizer que esses aparelhos já não são ligados à electricidade ?!!! É o que eu digo, é o que eu digo ... ahahahahahah !!! ... estamos no fim do mundo ! agora até colocam patos dentro dos aparelhos de som !!! isto é o fim do mundo, é o fim do mundo !!! ...

7ª Pers. : Perdão, senhor Silva. Eu não disse "com patos" mas sim "compact disc", e olhe que não é a mesma coisa !. Olhe, até tenho aqui um aparelho destes na mão – está a ver ?...

SILVA : Áààhhhh, agora já estou a compreender. Até me parece um aparelho bastante forte. Será blindado ?

7ª Pers. : pois claro que é blindado ...

SILVA : É bom que seja pois as meninas são novas e estragam tudo. Só vejo aqui um problema ... é que não sei quantos aparelhos destes devo comprar ... Vou pedir a opinião de minha mulher. Idalina ! Idalina ! Chega aqui num instante ...

IDALINA : Pronto, aqui estou. Que queres tu, marido ?...

SILVA : É para saber a tua opinião de quantos aparelhos de som devemos comprar a esta senhora. Evidentemente já a pensar nas nossas futuras casas em Copacabana e em Angra dos Reis.

IDALINA : Perguntas bem marido, mas francamente ainda não pensei no assunto. O que também não admira pois tenho tido muita coisa a fazer ...

SILVA : Como não tens opinião, eu vou resolver este assunto da melhor maneira possível. Olhe minha senhora, traga-me aí ... uns, uns ... digamos, trinta aparelhos de som que você diz que são "hei não sei de quê e aí uns ... duzentos desses aparelhos que têm "patos" que não são "patos" !

7ª Pers. : Mas ... mas, senhor Silva ... trinta aparelhos "HI-FI" ... ? .. e duzentos aparelhos "compact disc" ... ?! ...

SILVA : Pois .. pois ... a senhora deve ter muita razão ... estou mesmo a ver que são muito poucos ... mas tem de compreender que só agora é que encontrei a mina de ouro, além de ter muita pouca prática nestes assuntos ...

IDALINA : ´H homem, até parece impossível só encomendares essa quantidade de aparelhos, que eu não sei dizer o nome ! Estou mesmo a ver que tu, mesmo com uma mina de ouro, continuas a ser "ferreta" ! (unhas de fome). A senhora terá de desculpar, mas, o meu marido ainda não se convenceu que, a partir de hoje, que é uma figura das mais importantes da barra da Tijuca – o única que encontrou e tem uma mina de ouro !

SILVA : Bem, mulher, não me estejas a desorientar ! Vamos lá ao que interessa: espero pela tua opinião para saber quantos aparelhos devo encomendar ... Quantos, mulher ?! ...

IDALINA : Óh homem, espera pelas garotas ! pois de "tuvistes", de "róquis" e de "Blubes" (ou lá o que é isso), elas é que percebem !

SILVA : Tens toda a razão, mulher ! O que não quer dizer que tenhas sempre razão ... A senhora desculpe, mas peço-lhe que passe por cá mais logo quando as minhas filhas estiverem presentes. Bem, agora vou trabalhar na minha mina de ouro, pois, daqui a dez anos quero reformar-me ! ... ...

7ª Pers. : Então até mais loguinho, senhor Silva e dona Idalina ! ... ...

UMA VOZ : Será que desta vez é que o Silva vai começar a trabalhar ? ... a pergunta é boa. Mas ... aproxima-se da cena outra personagem: desta vez um Engenheiro ...


OURO EM BARRA DA TIJUCA

7º Episódio

SILVA : Idalina, Idalina ! estão novamente a baterem à porta !

IDALINA : Querido marido, agora não posso ir lá ...

SILVA : Pois, como tu não podes ir lá tenho de ir eu abrir a porta ... e com isto tudo, nunca mais começo a trabalhar – que vida a minha ... ... Alá caro senhor, em que lhe posso ser útil ? ...

8ª Personagem (ENGENHEIRO) : Penso que estou a falar com o senhor Silva, que descobriu uma mina de ouro ...

SILVA : Sim, sim sou eu que descobri uma mina de ouro ! Mas em que posso ser-lhe útil ?

8ª Pers. : Sabe, senhor Silva, sou engenheiro e gostava de falar com você ...

SILVA : Óh meu amigo ! Você vem em muito má altura ... pelos vistos hoje não me deixam trabalhar ! Veja lá bem que, por um homem ter descoberto uma mina de ouro, toda a gente se sente no direito de o vir chatear ! Vá lá, meu amigo, diga lá muito depressa o que deseja de mim ...

8ª Pers. : Bem ... bem, é que eu passei por estes lados e não quis deixar de o conhecer e de o cumprimentar ... eu sou engenheiro técnico ...

SILVA : Se você é engenheiro e também técnico, com certeza que é um bom profissional. Mas diga-me rapidamente em que lhe posso ser útil ?...

8ª Pers. : É que além de engenheiro, também sou industrial metalúrgico (serralharia). Ora, como o senhor encontrou uma mina de ouro, talvez precise dos meus serviços.

SILVA : Pois, talvez, talvez ... então traga-me um dúzia de picaretas e outra de pás de ferro, bem fortes e com o cabo bem comprido ... assim desta altura , está a ver ?...

8ª Pers. : Perdão, senhor. Silva, eu não vendo esses artigos ! Sou essencialmente, um industrial de serralharia, e, como é óbvio, não faço desses artigos.

SILVA : Agora é que não estou percebendo nada ... Então o que é que você faz ?!

8ª Pers. : Bem ... bem, senhor Silva, eu estou aqui, digamos, para lhe dar umas ideias ...

SILVA : Muito obrigado ! Se são ideias e se são dadas, aceito-as de muito boa vontade !

8ª Pers. : Então ... ora bem, o senhor Silva para esta exploração ...

SILVA : Olhe lá homenzinho ! Você teve o grande descaramento de me dizer que a minha mina é uma exploração ?! ... Exploração ?! ... Mas olhe lá que eu não estou a pensar em explorar ninguém – ninguém – ouviu bem ?! ... Pois eu vou trabalhar aqui no duro, com minha mulher e com as minhas duas filhas !!! ... Por isso, caro senhor, meça bem as suas palavras ! Porque eu não admito que me esteja já a chamar-me de explorador ! Estou mesmo vendo que por este andar, daqui a pouco você até será bem capaz de me chamar de "fascista" !!! Meça, meça e muito bem as palavras, seu engenheiro das "dúzias" !!! ...

8ª Pers. : Por favor, senhor Silva, acalme-se ... O que eu queria dizer é que o senhor vai explorar a terra – e não as pessoas – explorar a terra onde se encontra a sua mina de ouro !

SILVA : Bem, bem ... se é assim como você diz, já nos podemos entender um pouco melhor ...

8ª Pers. : Eu não tenho a menor dúvida que nos vamos entender maravilhosamente ! ... Para a exploração, mas senhor Silva, volto a repetir :da terra e não de pessoas; deve vir a precisar de silos, de tapetes rolantes, de material pneumático, etc., etc. ...

SILVA : Estou vendo, estou vendo ... e olhe lá engenheiro, isso tudo será feito de madeira, não é assim ?...

8ª Pers. : De madeira ?! ... Mas senhor Silva, eu só trabalho em aço inox ...

SILVA : UUUhhhhh ... em aço inox, não sei ... porque o aço é bem capaz de riscar o ouro. Confesso que já tinha pensado nesses silos, mas feitos de madeira. É que sabe, o ouro em pó risca-se facilmente ...

8ª Pers. : O ouro não se risca assim tão facilmente, senhor Silva. Principalmente o ainda em pó !

SILVA : Meu caro engenheiro, não posso estar minimamente de acordo com você ! Posso garantir-lhe que risca e bem ! Olhe só para esta minha aliança, como vê, está toda riscada !

8ª Pers. : Muito bem, muito bem senhor Silva ! Se quiser até podemos forrar os silos com borracha ou mesmo com plástico. E assim, já pode ficar com a certeza que o ouro não se vai riscar, mesmo que seja ouro em pó !

SILVA : Esta a ver, está ver como nos entendemos ? A falar é que os homens se podem entender. Assim, como você diz, e muito bem, silos forrados a borracha ou mesmo a plástico, já estou de acordo ! Mas como você deve compreender, terei de estudar e muito bem este assunto. Os silos e a parte financeira ... Olhe lá meu amigo, esse trabalho será muito caro ?

8ª Pers. : Caro, não será muito, para mais, sendo o senhor o proprietário de uma mina de ouro.

SILVA : Pois é, pois é sou proprietário de uma mina de ouro, aliás, a única mina de ouro daqui da Barra da Tijuca; mas não quer dizer que tenha dinheiro a "rodos". Até terei de ter muito cuidado, pois senão, não há mina de ouro que resista ! Olhe, meu amigo, passe por cá noutra ocasião para nós acertarmos ideias. Entretanto, terei de ir trabalhar muito, muito pois, daqui a dez anos quero reformar-me. Deixe-me cá o seu cartão que eu depois lhe telefonarei. Idalina, Idalina ! vem cá e acompanha este senhor engenheiro até à porta !

8ª Pers. : Foi um prazer tê-lo conhecido ! Aqui está o meu cartão com morada e telefone. Passe muito bem, senhor Silva !

UMA VOZ : Depois de ter "despachado" o engenheiro, o nosso amigo preparava-se para começar a trabalhar a sério na sua mina de ouro, que tinha descoberto em sua casa, na Barra da Tijuca. Só que, outro personagem (o Artur Pedreiro) entra em cena. Toca à porta, a Idalina veio abrir e ...


OURO EM BARRA DA TIJUCA

8º Episódio

IDALINA : Silva, podes chegar aqui num instante ? ... está aqui um amigo que te deseja falar ...

SILVA : Óh mulher ! Eu não posso atender hoje mais ninguém ! tenho que ir trabalhar para a nossa mina de ouro, pois, daqui a dez anos quero reformar-me ! Deves pensar nisso e ajudar – mês ...

IDALINA : Marido, mas desta vez é o nosso querido amigo e senhor Artur, o pedreiro que mandaste chamar há quinze dias.

Silva : Áh , é esse ! então que espere um pouquito que já o vou atender ... ... Que pouca sorte a minha, pois hoje, estou mesmo a ver que não me vão deixar ! E eu tenho tanto que fazer ... pronto mulher, não me faças essa cara que eu vou já atender o homem ... ... Olha o senhor Artur ! Bons olhos o vejam. Já hoje tinha pensado em você, não por aquele trabalho no banheiro (o qual pode esperar), mas sim, para fazer um barracão para tapar a minha mina de ouro. Não sei se está a ver ? ...

9ª Personegem ( Artur, o PEDREIRO) : Olá ! Antes de mais, amigo Silva, um grande abraço e os meus parabéns por Ter encontrado uma mina de ouro. No que diz respeito ao trabalho que quer que eu faça, é só dizer-me o que quer e quando pretende que eu comece.

SILVA : Amigo Artur, já estive a pensar no tipo de barracão que quero, para tapar a mina, mas como hei – de explicar ? ... Olhe, o telhado feito a sim de modo de feitio de uma bala, ou de um supositório --- compreende ? ...

9ª Pers. : Óh amigo Silva, se bem o entendo, você quer um barracão com telhado do feitio de um "iglô" – não será assim ? Assim, está a ver como estou a fazer com as mãos ?...

SILVA: Parece-me que o amigo Artur está a falar num moderno tipo de arquitectura, o que desde já lhe digo que não entendo nada – mesmo nadinha ! Resumindo: não sei qual é o feitio desse tal "iglô" ...

9ª Pers. : Vou tentar explicar-lhe: Um "iglô" é uma cabana de esquimós feita no gelo ! assim mais ou menos ...

SILVA : Àhhhhh !!! então é isso. Quando eu era pequenino, "esquimó" era um gelado como agora lhe chamam – mas como estão a alterar o nome a tudo ... Bem, mas você já percebeu o que eu pretendo, não é assim ? Mas não esteja para aí a fazer desenhos porque eu não entendo nada de riscos ... olhe, nem de sinais !

9ª Pers. : O que você quer, amigo Silva, é uma construção redonda, aí com uns 4 metros de altura, com telhado com a configuração de um supositório, como você diz ...

SILVA: Certíssimo !!! é que mais tarde conto comprar um "hãlicóptro" ...

9ª Pers. : O quê ?... o que é que você diz que vai comprar ?! .... !!!! ....

SILVA : Um "hãlicóptro", homem ! Um daqueles aviões que têm uma "aventuínha" grande por cima e outra mais pequena por trás ! Você, querido amigo Artur, nem parece que é um homem deste tempo ! Nem diga a ninguém que não sabe o que é um "hãlicóptro", pois, senão, ainda gozam consigo !!!

9ª Pers. – Tenha calma amigo. Assim, como você explicou (aliás muito bem explicado), claro que já sei o que é um "hãlicóptro", como você diz !

SILVA : Ora até que enfim que compreendeu – e já não era sem tempo ! Mas vamos lá ao que mais interessa neste momento, o seja, o barracão. Quando eu tiver o tal "hãlicóptro", arranjo um balde preso a uma corda ... depois desce e, quando o balde estiver cheio, o "hãlicóptro" puxa-o para cima e aproveita logo para pôr o ouro em pó, dentro das arcas. Está a compreender, não está, amigo Artur ? ...

9ª Pers. : sim, sim. Estou a compreendê-lo e até muito bem ! Óh amigo Silva, você é muito imaginoso – os meus parabéns !

SILVA : Felizmente sempre fui muito imaginoso e sobretudo muito inteligente, o que aliás todo o mundo reconhece ! E mais, quando eu tiver uma casa em Angra dos Reis, também vou utilizar o "hãlicópto" para me deslocar até lá. É ou não uma boa ideias ? Diga lá, amigo Artur ! Como vê, sou muito inteligente e muito imaginoso !!! ...

9ª Pers. – Estou vendo, estou vendo. O meu amigo tem sempre muito boas ideias. Mas vamos ao trabalho: vou tirar as medidas para ver o material que vou precisar.

SILVA : Vá, vá meu amigo. E mãos à obra pois eu quero o barracão rapidamente feito, pois, daqui a pouco começa a chover e eu não quero o meu ouro molhado ! Enquanto você vai tirar as medidas eu vou calçar as botas para depois ir trabalhar no duro. Sim, porque tenho de trabalhar muito, muito pois quero reformar-me daqui a dez anos. E quem não tiver muito ouro, passa uma vida de miséria com a reforma !

UMA VOZ : Depois do Artur pedreiro sair, outra personagem entra em cena. Desta vez uma "VENDEDORA DE IMÓVEIS".


OURO EM BARRA DA TIJUCA

9º Episódio

IDALINA : Marido ! Está aqui uma senhora que quer falar contigo e eu gostava que falasses com ela !

SILVA: Óh, mulher ! Até parece impossível ! já estou sem paciência para aturar mais pessoas, pois, eu quero só trabalhar na nossa mina, pois daqui a 10 anos quero reformar-me ! Olha lá, mas quem é essa mulher com quem queres que eu fale ? O que não é nada do teu género, mas já que tanto insistes ...

IDALINA : Silva, não sejas assim tão rabugento pois te fazes velho mais rapidamente ! Fui eu Qua a mandei chamar, e tenho a certeza que vais gostar de falar com ela. Vou já mandá-la entrar ... ... A senhora vá entrando que meu marido já a vai atender ...

10ª Personagem (Vendedora de Imóveis) : Olá senhor Silva ! Desculpe-me vir incomodá-lo, mas prometo que o não demorarei muito ! Sua esposa mandou a sua filha mais velha telefonar-me para eu vir cá, pois o senhor Silva, eventualmente, estaria interessado em comprar um apartamento em Copacabana e uma casa em Angra dos Reis, e, como sou vendedora de imóveis ...

SILVA : Pois ... pois é, a minha Idalina é um tanto ou quanto apressada e não pensa que eu tenho de trabalhar muito, muito, e ainda hoje não consegui fazer nada ! Mas então diga lá as suas ideias ...

10ª Pers. : É simples. Eu, como vendedora de imóveis, tenho apartamentos, prédios, vivendas, para vender ...

SILVA : Áh, é isso ! Pois, pois, talvez, e em princípio, esteja interessado num apartamentozito em Copacabana. Digamos, assim, assim. A senhora sabe como são estas coisas ... os vizinhos sempre tiveram muita inveja de nós, e agora, com a descoberta da mina de ouro, ainda mais inveja têm ! Se eles virem alguma coisa boa, mordem-se todos !

10ª Pers. : Estou a compreender muito bem, senhor Silva. Então para Copacabana, como quer uma casa assim, assim ... Olhe, este apartamento deve-lhe servir muito bem, muito bem mesmo ...

SILVA : Se me vai mostrar desenhos, será tempo perdido, pois, de desenhos nada percebo. Já quando andava na escola básica, não tinha habilidade nenhuma para eles.

10ª Pers. : Mas olhe que este projecto é de fácil compreensão, quer ver ?... Olhe, este apartamento tem três quartos ...

SILVA : O quê ?!!! ... Só com três quartos ?! ... Óh, minha querida amiga, isso não chega para nada ! é certo que eu quero um apartamento pequenino, modesto, mas, que tenha pelo menos sete ou oito quartos !!! Também não convém exagerar muito com a nossa pequenez, compreende ?...

10ª Pers. : Sim, sim ... estou a compreendê-lo ... mas de momento não tenho nada em Copacabana que lhe posso interessar. Mas esteja descansado que a qualquer altura pode aparecer um apartamento que lhe convenha.

SILVA : Mas olhe que não deve demorar muito, pois, senão, terei de procurar por outro lado ...

10ª Pers. : O senhor Silva pode acreditar em mim, pois, dentro de breves dias arranjarei o que pretende em Copacabana. Agora no que diz respeito a Angra dos reis, posso-lhe arranjar uma casa com sete ou oito quartos ...

SILVA : Olhe lá, minha senhora ! Em Angra dos reis, uma casa só com sete ou oito quartos ?! ... Óh, minha boa amiga, francamente ! em Angra dos Reis, quero uma casa muito grande, muito grande mesmo ! Sabe uma coisa, estou a ver que você não deve ser aquela vendedora que eu pretendo. Minha amiga, em Angra dos reis, não há tanta inveja, e além disso ninguém sabe o que nós fazemos ou que temos. Por essa razão, eu quero uma casita com pelo menos ... pelo menos, com uma dúzia de quartos !

10ª Pers. : Uma dúzia de quartos ... uma dúzia ... deixe-me cá ver o que tenho neste catálogo ... olhe, olhe, cá está uma que vem muito a propósito. Vai ver que sou mesmo boa vendedora de imóveis ! Veja aqui este palacete de estilo colonial ...

SILVA : O quê ?! ... de estilo colonial ?!!! ... Você não deve estar boa da cabeça ! Com que então de estilo colonial ! ... Essa não, essa não ! Então a senhora queria que toda a gente me chamasse de colonizador, de fascista, de facho, explorador, e nem sei que mais ?! ... Óh, minha senhora ! Estou mesmo a ver que só me está a fazer perder tempo, e, eu tenho que trabalhar muito pois, daqui a 10 anos, quero reformar-me !

10ª Pers. : Tenha calma, tenha calma, senhor Silva ! Pois o edifício em questão, presentemente tem o estilo colonial, mas com umas modificaçõezinhas, pode mudar de estilo ... sei cá ... olhe, talvez para o estilo proletário !

SILVA : Bem, bem assim, já estou mais de acordo ... mas olhe lá, quantos quartos tem esse tal palacete que, em sua opinião, poderá ficar em estilo ... operário, não é ? ...

10ª Pers. : Deixe cá ver, deixe cá ver ... o palacete tem onze quartos e cinco banheiros !

SILVA : Ahhh ! ... Estamos na mesma ! só tem onze quartos ! e olhe lá, para que eu quero cinco, imagine, cinco banheiros ! que quando utilizo, é um só de cada vez ?! ....

10ª Pers. : Olhe que também tem garagem, cómodos e terreno para jardim, além de uma razoável e boa área para cultivar ...

SILVA : Cada vez a estou a perceber menos ... Você até parece que está a gozar ! veja bem, um terreno para cultivar ! Olhe lá, para que quero eu terreno para cultivar ?! ... então, você pensa que eu, o Silva, proprietário de uma mina de ouro, pretendo ter uma casa em Angra dos reis, para plantar batatas ?! ... Óh, minha senhora, eu estou pelos "cabelos", pois, ainda hoje, não me deixaram trabalhar, e eu quero reformar-me daqui a dez anos ! Olhe, passe por cá outro dia para conversámos melhor e com mais tempo ... ... Idalina, acompanha esta senhora até à porta ! ...

UMA VOZ : E quando estava a começar a trabalhar, sua mulher veio-lhe dizer que o Coelho, o ourives, estava em casa para lhe falar. Ainda não será desta que o nosso bom amigo consegue trabalhar em pleno na sua mina de ouro ...


OURO EM BARRA DA TIJUCA

10º e último episódio

11ª Personagem (OURIVES – Coelho) : Óh, da casa ! ... Óh, senhor Silva ! ...

IDALINA : Quem está aí a gritar ?! ... Áh ! é o senhor Coelho ! ... entre, entre que meu marido vai já atendê-lo ...

11ª Pers. : Olá, minha senhora. Estou aqui porque a senhora deixou recado a minha mulher para eu vir aqui a sua casa. Parece-me que será por causa de um ouro ...

IDALINA : Tem toda a razão, é por causa de um ouro ! O senhor Coelho ainda se deve lembrar de meu marido, o Silva ...

11ª Pers. : Sim, sim ... parece que tenho uma vaga ideia ... do senhor Silva ...

IDALINA : Olhe, falámos nele e ele logo apareceu. Silva, está aqui o senhor coelho – o ourives. Vem cá atendê-lo !

SILVA : Olha o grande amigo Coelho ! Então como o meu bom amigo tem passado ?! ... Estou vendo que você está (ou aparenta) estar mais velho do que eu !

11ª Pers. : Apesar da minha aparência (de velho), tenho passado muito bem; e o senhor Silva como tem passado ?

SILVA : Eu estou muito bem ! E muito feliz por o senhor Coelho ainda se lembrar de mim, o que, quer dizer que ainda tem muito boa memória ! Eu sou o Silva que lhe comprou duas alianças em ouro à cerca de vinte anos ...

11ª Pers. : Sim, sim ... tenho uma vaga ideia ... Mas agora diga-me: em que lhe posso ser útil ? ... Sim, porque o senhor Silva deve estar interessado em comprar-me alguma coisa ...

SILVA : O amigo Coelho está a surpreender-me ... e muito ! Olhe lá, por acaso não vê televisão, nem ouve rádio e nem lê os jornais ?! ...

11ª Pers. : Por acaso hoje não tive oportunidade de ver, nem ouvir, nem sequer ler, pois, saí de casa muito cedinho para ir pescar e, já sabe como é. Por isso, não sei o que o senhor me quer dizer ... sabe, em dias de pesca ...

SILVA : Estou vendo, estou vendo. Então só por isso é que não sabe a grande novidade ! Olhe lá, aqui o seu grande amigo que está à sua frente (e que o amigo Coelho já conhece à tantos anos) ... imagine só: descobri uma MINA DE OURO !!! ...

11º Pers. : Uma mina de ouro ?!!!!! ..... Uma mina de ouro ?!!!! ... aqui neste sítio ?! ... A mim parece impossível tal descoberta !

SILVA : AAAnnn ! Parece-lhe impossível, mas não é ! Olhe para aqui, amigo Coelho – olhe para este pó ! isto sim ! É que é o verdadeiro ouro em pó !

11ª Pers. : Calma, senhor Silva, calma ... então é a isto que o senhor Silva chama ouro ?! ... Olhe que não me parece ... Há mais de cinquenta anos que sou ourives e nunca considerei ouro este metal ... isto, senhor Silva, chama-se LATÃO !!

silva : Mas, mas ... Meu caro amigo, por favor, não brinque comigo !!! Olhe lá, o que é que você está para aí a dizer ?! ... É o que eu digo: está a brincar comigo ! Latão ?! ... por favor, deixe-se de brincadeiras ! Estou vendo que o senhor Coelho é um grande brincalhão ! ...

11ª Pers. : Senhor Silva ... infelizmente, eu não estou a brincar ... isto que o senhor me mostra, não é mais do que Latão.

É certo que é um metal também amarelo, mas, considerá-lo ouro em pó – só na sua imaginação !

SILVA : Óh, senhor Coelho ! Nem posso acreditar naquilo que estou ouvindo ... Olhe lá, então como veio parar aqui uma mina de latão – não me diz ?...

11ª Pers. : Concretamente, eu não sei ... Mas quando era menino e moço, lembro-me que existia aqui, mais ou menos neste local, uma fundição de metais ... Possivelmente, utilizavam este poço como tulha

de sucata ...

SILVA : Eu nem quero acreditar naquilo que estou ouvindo ... Então você diz que este pó ... não é ouro verdadeiro ?! este pó, não é ouro ?!...

11ª Pers. : Senhor Silva, este pó, não é ouro – é simplesmente Latão ! ... Mas, senhor Silva, talvez possa vender este pó como sucata e assim, ganhar uns centavos. É natural que não ganhe muito ...

SILVA : Não, não pode ser verdade o que me está a dizer ... isto tem de ser ouro ... ouro, ouro, ouviu ?! ...

11ª Pers. : Lamento e muito, mas, como já lhe disse, isto aqui não é ouro. Senhor Silva, eu não lhe posso fazer nadinha, como deve de compreender ...

SILVA : Eu ... eu nem posso acreditar !... isto é duro, duro ... depois de tanto trabalho, tantas canseiras, de tantas esperanças ... começo a compreender que era bom demais para um pobre e simples homem como eu ! ...

11ª Pers. : Bem, eu vou indo para minha casa. Lamento a sua situação, mas, depois de um dia de pesca, estou muito cansado: A idade já me começa também a pesar um pouco. Senhor Silva, quando quiser comprar algum objecto em ouro, já sabe, o seu amigo Coelho vende ouro, assim como pedras preciosas e relógios, ao melhor preço do mercado. Amigo Silva, passe muito bem ...

SILVA : Mesmo assim, muito obrigado amigo e senhor Coelho. Resta-me só pedir-lhe desculpas de o ter incomodado. ...

Idalina, Idalina ... acompanha o senhor Coelho ... ... (que triste sina a minha ...) ... ...

IDALINA : Pronto, o senhor Coelho já lá vai. Marido, o que se passou ? ... Pela tua cara, já estou a compreender tudo ! ... Olha que sempre foste um exagerado. Vê lá tu que desta vez meteste na cabeça que tinhas descoberto uma mina de ouro ! Essa sorte não é para a gente, Silva !

SILVA : Tens toda a razão, mulher. Que ridículo que eu fui. As visitas já não aparecem. Quando há dinheiro, há visitas e amigos, que no final das contas, não são mais do que simples conhecidos. Quando não há dineiro, ficamos sozinhos !

IDALINA: : Disto tudo que se passou, só tenho pena das nossas filhas. Quando elas chegarem, o que lhe vamos dizer ?

SILVA : Eu nem sei, mulher ... Mas a esta hora, já devem saber que o pai não encontrou nenhuma mina de ouro, pois, as más notícias correm depressa.

IDALINA : Que grande decepção vão elas ter ...

SILVA : Mas o que eu posso fazer ?... Vamos contar-lhes tudo o que verdadeiramente se passou, e, espero que elas compreendam. Mas a vida é sempre assim cheia de ilusões.

IDALINA : Que vida a nossa, Silva !

SILVA : Não te esqueças de preparares o almoço para eu amanhã levar para o trabalho. Amanhã será outro dia e a vida tem de continuar ...

((( as luzes apagam-se momentaneamente - a cena muda, agora com as duas filhas do casal ...)))

SILVA : ... pois é, minhas filhas. Foi um sonho lindo – só que a realidade foi outra. Vamos continuar a ser o que sempre fomos: pobres mas honestos. Temos de continuar a trabalhar de dia, para podermos comer à noite. É este o nosso Destino ...

IDALINA : Querido marido, sempre foste um exagerado (como já te disse), mas, desta vez estás a sofrer demais. Mas eu amo-te, querido exagerado !

SILVA : Ser ecagerado, nunca me serviu de nada ! Olha, nem o Sega Mega, com esta barafunda toda nem verifiquei a chave dos números. Mas também como não tenho sorte, nem merece a pena conferir ...

IDALINA : Silva, eu tenho aqui a chave dos números, queres tomar nota ? ...

SILVA: Idalina, meu amor, estou tão cansado que só amanhã confiro ...

IDALINA : Silva, por favor, ganha coragem ! Vai descansar, pois, amanhã será outro dia de trabalhos ...

SILVA : Tens razão, mulher ! Um beijinho ...

((( a luz apaga-se totalmente. Ouve-se bater repetidamente à campainha da porta )))

EM CORO ( Repórteres da Comunicação Social) : O senhor Silva, o senhor Silva, está em casa ?!... Queremos falar ao senhor Silva ?!... Silva ?!.... ...

IDALINA : Marido, marido ... Silva ! Não te deites ainda, pois, estão aqui repórteres da televisão, da rádio, dos jornais, que querem entrevistar o único concorrente que acertou em todos os números do Sega Mega desta semana ... ... ...