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A Caminho de Paquetá - CARLOS LEITE RIBEIRO

Tipo de transporte, e nome: "Veleiro" (sem motor) ; nome: "Luso/Tamoio"

Tipo da missão: "Quase Impossível"

Destino e coordenadas: "Rio de Janeiro 23º 00’ 00" s ; 43º 25’ 00" v"

Porto de amarração : "Ilha de Paquetá (Baía de Guanabara – Rio de Janeiro" 22º 59’ 00" s ; 44º 24’ 47" w"

Tripulação:

Carlos :Português, natural de Lisboa, residente na Marinha Grande (Portugal). Comandante – um verdadeiro "Lobo da Água", com muita experiência em travessias em piscinas e na banheira. Viajante e nas horas vagas Jornalista. A sua missão a bordo é dirigir, comer e dormir.

Ana Cecília : Luso- Brasileira, natural de São Paulo, residente e Monte Estoril (Portugal). Magnífica escritora / poeta e nas horas vagas, Assistente Social. Além de ser responsável pela cozinha (grande especialista em feijoada), também é responsável por todos os cordames do veleiro.

José Benício : Brasileiro, natural de Volta Redonda (RJ), residente em São João do Estoril (Portugal). Poeta consagrado, e nas horas vagas, Profissional de Seguros. É o responsável pelas apólices e também pela conservação dos mastros, além de, no cesto da gávea, com um enorme óculo, perscrutar constantemente o horizonte.

Leonildo Santos: Brasileiro, natural de Itaré (Bahia), residente no Cacém (Portugal). Poeta já consagrado, e nas horas vagas, Enfermeiro. Além de tratar da saúde, para ele dar uma injecção ou fazer um poema é quase a mesma coisa; também é responsável pelo leme.

Lourdes Leite: Brasileira, residente em Linda-a-Velha. Cronista e nas horas vagas, Aposentada. É a cronista-mor da expedição, e, também pela limpeza do veleiro.

Pela calada da noite, o veleiro "Luso / Timoio" zarpou do porto da Expo. Estava um lindo luar e as águas do rio Tejo estavam muito calmas. Lisboa ficava ao nosso lado direito e a tripulação começou a cantar (desafinadamente), languidamente o fado – canção "Lisboa à Noite", letra e música de Fernando Santos; Carlos Dias e Fernando Faria:

"Lisboa adormeceu, já se acenderam / Mil velas nos altares das colinas.

Guitarras, pouco a pouco, emudecerem, / Cerraram-se as janelas pequeninas. /

Lisboa dorme um sono repousado, / Nos braços voluptuosos do seu Tejo, /

Cobriu-a a colcha azul do céu estrelado /

E a brisa veio, a medo, dar-lhe um beijo.

Lisboa andou de lado em lado, / Foi ver uma toirada, depois bailou, bebeu. / Lisboa /

Rompia a madrugada, quando ela adormeceu.

Lisboa não parou a noite inteira, / Boémia, estouvada, mas bairrista, / Foi à sardinha assada, lá na feira, /

E à segunda sessão duma Revista / Dali p’ró Bairro Alto enfim galgou, / No céu, a lua cheia refulgia, /

Ouviu cantar a Amália e então sonhou / Qu’era a saudade, aquela voz que ouvia.

Lisboa andou de lado em lado, / Foi ver uma toirada, depois bailou, bebeu. / Lisboa /

Rompia a madrugada, quando ela adormeceu"

Já estávamos a passar por baixo da Ponte 25 de Abril. Olhamos para trás e vimos já ao longe o vetusto e imponente Castelo de São Jorge, todo iluminado. É um dos muitos ex-libris da bela Lisboa, o que ao vê-lo deixou em nossos corações uma certa nostalgia. A nossa belíssima colega e amiga, Ana Cecília, do alto dos seus 1,71 m, sem uma única grama de gordura que não seja necessária, elegantemente vestida com um vestido de noite da cor canela, com decote em "V"; timbre de voz melodioso e muito agradável, agarrada ao mastro grande, foi dizendo como pensasse alto:

-"Que vida a minha ! quando estou em Portugal, desejaria estar no Brasil; quando estou no Brasil, só desejo regressar a Portugal ...". E grande poetisa como é, logo começou a recitar: -

"Dedico este meu poema / A Portugal e ao Brasil, / A propor um teorema / Cujas respostas são mil ... /

Sou gaivota com memória / E vou contar-vos a história / A partir da Criação ... /

Que a vossa é mui mal contada / E a língua é só bem falada / Quando fala o coração ... /

Do meu coração desejo / Que ao ouvir a Humanidade, / Perceba que sabe a Tejo / A Língua da Liberdade ..."

Maravilhoso poema ! Voltando-se para o Comandante, a Ana Cecília convidou-o:

-"Eu adoro ser apresentada por você. Por favor Carlos, apresente o meu próximo poema". O Carlos sorriu e respondeu-lhe:

- "Ana, eu estou em calções ! como posso apresentar uma poetiza como você com este trajo ?... Como tinha dito isto por brincadeira, o Comandante apresentou-a: -"Amigos !!! Connosco continua a Ana Cecíliaaaa !!! (aplausos) que vai interpretar o poema: "A Criação", em homenagem ao Tejo que estamos prestes a deixar. A vossa atenção : -

"E Deus criou o Tejo por Amor ... / Como se fosse apenas mais um rio / E deu ao seu destino o desafio /

De ser do português o protector, / Crê-se que em Serra de Albarracim / Seja onde nasce o Tejo e dali corre / Cingido às margens, português enfim, / Desagua no Oceano e ali morre ! / Porém gaivota alguma pensa assim ... / O Tejo não começa e não tem fim ... / Eterno é o Tejo em terna gentileza /

Como se fosse a mãe a dar o colo, / Dá de beber ... e a gente portuguesa, / Sente ser seu o tão distante solo ...". (...)

Estávamos a passar o estuário do Tejo e a entrar no Oceano Atlântico. Sintonizámos a Rádio Criativa – "A RÁDIO QUE ACOMPANHA SEMPRE O OUVINTE, MESMO NO OCEANO ATLÂNTICO !!!". Naquele momento estavam a falar em nós: - "(...) aos valentes navegantes do veleiro "Luso-Tramoio" a navegar algures no Oceano Atlântico, com destino à Ilha de Paquetá – Baía de Guanabara – Rio de Janeiro – Brasil, desejamos que tenham óptima viagem e que encontrem bem o rumo. Para eles, só para eles, vamos ouvir uma das grandes criações da saudosa Amália Rodrigues: "Ai, Mouraria":-

"Ai, Mouraria / da velha Rua da Palma, / onde eu um dia / deixei presa a minha alma, / por ter passado / mesmo ao meu lado / certo fadista / de cor morena, / boca pequena / e olhar trocista.

Ai, Mouraria / do homem do meu encanto / que me mentia, / mas que eu adorava tanto. / Amor que o vento, / como um lamento, / levou consigo, / mais que ainda agora / a toda a hora / trago comigo.

Ai, Mouraria / dos rouxinóis nos beirais, / dos vestidos cor-de-rosa, / dos pregões tradicionais. / Ai, Mouraria / das procissões a passar, da Severa em voz saudosa, / da guitarra a soluçar".

Já no Atlântico e antes da Caparica, avistámos pela última vez o Castelo de São Jorge. Logo toda a tripulação começou a cantar a "Marcha do Castelo":

"Castelo, facho de luz / Guião do País mais belo / Castelo de Santa Cruz / De Santa Cruz do Castelo

Muralha sempre em pé / Sentinela da cidade / São Jorge te fez até, / Por amor por caridade, /

Guardião da nossa fé

Castelo dos reis / Dos bons, dos fiéis, / Heróicos à vezes / Dos nossos irmãos / Dos moiros cristãos /

Também portugueses.

Muralha maior / Que sabes de cor / A história da gente. / Silêncio, escutai, / Que a marcha aqui vai /

Alegre e contente.

São Jorge das procissões, / Tu és de ferro pesado / E sabes que há corações / Que são de ferro forjado.

Eu trago aqui um balão / Tão bonito e tão / esquecido, / Castelo d’ ilusão / D’ um rei que anda aí / fugido / Talvez noutro coração".

A Lourdes Leite, sempre alegre e animada, logo convidou a turma para cantar mais uma marcha popular de Lisboa:

- "Amigos, já não enxergamos o Castelo de São Jorge, mas Lisboa, ainda está em nossos corações. Vamos cantar a "Marcha dos Quinhentos" ? Estou a ver que vocês não estou recordados da música, mas eu estou e vou dar o mote. Vamos lá ?...: -

"Lá vai a marcha / de Lisboa dos Quinhentos / Levando a marinhagem / E o sonho de viagem /

Que fez os descobrimentos.

Lisboa vestida de mar / Fazia de cada pregão / O seu modo de mostrar / Sofrimento e emoção.

Vinham negros, vinham / índios / de outros continentes / Com falas e com rosas / Coloridas e diferentes.

E a Lisboa festiva / Que dançava nas esquinas / Tinha o tempero e o tom / D’alegria das varinas.

A cidade marinheira / tinha os seus grandes / momentos / Nos relatos das viagens / Desses homens / quinhentos.

Enquanto os homens / partiam / Ficavam tristes no cais / As mulheres a murmurar: /

"Eles já não voltam mais".

E os meninos à espera / Dos pais que não voltavam / Iam prá marcha da vida / Enquanto as mães os / chamavam.

E a cidade garrida / Sempre alegre e mercantil / Repartia os seus sonhos / Entre a Índia e o Brasil".

Atenção tripulação do veleiro "Luso / Tramoio": - Amanhã e dias seguintes, vamos ter muito trabalho que vai exigir de todos nós muitas energias. Assim, proponho que façamos a nossa última homenagem (nesta noite, claro) à bela Lisboa, cantando "Sinfonia de Lisboa", música de Raúl Ferrão e versos de Norberto de Araújo. Depois, leitinho, xixi e cama ..."

"Lisboa é sempre / Namoradeira, / Tantos derriços / Que até já fazem fileira.

Não digas sim, / não digas não; / Amar é destino, / Cantar é condão.

Uma cantiga, / Uma aguarela, / Um cravo aberto / Debruçado na janela. / Lisboa linda, / Do meu bairro antigo, / Dá-me o teu bracinho, / Vem bailar comigo.

Lisboa nasceu / Pertinho do céu / Toda embalada na fé / Lavou-se no rio, / Ai, ai, ai menina /

Foi baptizada na Sé.

Já se fez mulher / e hoje o que ela quer / É trovar e dar ao pé. / Anda em desvario / Ai, Ai, Ai, menina /

Mas que linda ela é !

Hó noite de Santo António ! Hó Lisboa de encantar ! / De alcachofras a florir / De foguetes a estoirar. / Enquanto os bairros cantarem, / enquanto houver arraiais, / Enquanto houver Santo António /

Lisboa não morre mais.

Toda a cidade flutua / No mar da minha canção / Passeia na rua / Retalhos de lua / Que caem do meu balão. / Deixem Lisboa folgar, / Não há mal que me arrefeça, / A rir, a cantar, / Cabeça no ar, /

Eu hoje perco a cabeça

Lisboa nasceu / Pertinho do céu / Toda embalada na fé / Lavou-se no rio, / Ai, Ai, Ai, menina /

Foi baptizada na Sé".

Livro de bordo:

"Dia Nº 02 : A viagem está a decorrer dentro do previsto, com mar calmo e brisa suave. Pela 16 horas (de Portugal), da gávea da nau, quando perscrutava o horizonte, o José Benício avistou um enorme cardume (?) de sereias de Copacabana, em viagem turística até ao Tejo. Foi um convívio breve mas muito agradável e altamente elucidativo para toda a tripulação. O Comandante até convidou a chefa das sereias para nos acompanhar, mas o convite foi recusado pois ela (a sereia) tinha um gato à sua espera em Lisboa. Quem não estava a ficar nada satisfeita era a Ana Cecília, alegando que não queria o veleiro a cheirar a peixe. O Leonino teve que dar uma injecção a uma sereia que se apresentava com anginas nas guelras. Como conseguiu ele dar a injecção é que ninguém descobriu ... Na despedida, cada sereia ofereceu a toda a tripulação uma escamazinha sua"

"Dia Nº 03 e 04": No primeiro destes dias, o facto mais importante foi uma saborosa feijoada, que originou enorme tempestade de desabafos intestinais. Até parecia que o veleiro era movido a turbo / jacto. Muito trabalho teve o Leonino para atenuar esta grande tempestade ... No dia seguinte, logo pela manhã, foi avistado um homem alto, de cabelo e barba comprida ruiva, amarrado a um mastro de jangada, com os olhos vendados e tampões nos ouvidos.

- "Quem será o infeliz ?!" – gritou a tripulação em uníssono .

Habilmente, o Leonino manobrou o veleiro de forma a encostar à jangada. Depois saltou para dentro, desamarrou , e tirou a venda ao homem. A Ana Cecília também saltou para lá para ajudar o homem a subir para o nosso veleiro. Ao ver a Ana, o homem logo agarrou-se a ela, gritando:

- "Minha querida Penelope, que amor, que saudades tinha eu de ti ! ...".

A muito custo, a tripulação conseguiu retirá-la daquele abraço do presumível naufrago. Já recomposta e mais calma, a Ana interpelou a estranha personagem: -

- "Olha, lá donde você veio?".

Pensativo e coçando a comprida barba, a personagem respondeu-lhe:

- "Vi-me "grego" para a aqui chegar ... Vocês não me conhecem ? Nunca leram Homero ? Nunca ouviram falar na sua obra épica, "Odisseia" ?

O nosso Comandante Carlos aproximou-se do homem, abraçando-o e, de seguida apresentou-o à tripulação: - - "Estamos na presença do grande Ulisses ! Rei lendário de Ítaca, filho de Laerte, pai de Telemaco e esposo de Penelope. Este amigo que aqui vêem, foi o grande heróis do cerco de Tróia, onde, segundo a lenda, com um tal cavalinho feito de tábuas madeira, conquistou a cidade e o coração de bela Helena. Mais um abraço deste seu grande admirador !. Então como está sua mulher ?". –

- "Amigo Carlos, não me fale em mulheres !...".

O Carlos afastou-se logo de Ulisses, deixando escapar: - "Nem quero acreditar naquilo que ouvi !". – O herói grego, sorriu :-

- "Amigo Carlos, não é nada disso que você está a pensar ... nadinha ! Se me tem deixado falar, teria ouvido que estou farto de mulheres feiticeiras como a Cirne, que, com as suas mezinhas me prendeu durante muitos anos – era isto que lhe queria dizer".

Todos aconselharam-no a regressar aos braços de sua esposa amada, procurar o seu fiel cão, ter a ajuda de seu filho Telemaco, esticar seu arco e atirar flechas aos pretendentes à mão (e arredores) de sua Penelope. Ulisses alegou que antes de regressar a casa, tinha que fundar uma linda cidade de sete colinas, situada perto do estuário do Tejo, a Ulisseia (Lisboa, segundo a lenda) e só depois é que regressava a casa. Para tal, precisava da ajuda de fortes ventos. Ao ouvir isto do herói grego, o Comandante Carlos mandou a Ana Cecília dar-lhe uma grande panela de feijoada... E lá se foi o Ulisses, não sem antes ter feito um seguro contra todos os riscos, mais um da saúde, além de um plano de aposentação. Nem em viajem o José Benício perde o sentido profissional".

Dia Nº 05: "A cronista – mor teve de fazer a limpeza geral, lavrando o seguinte protesto: -

- "Todos sujam e ninguém limpa. Pelo facto, entreguei ao Comandante uma nota de pré-aviso de greve".

O facto mais importante deste dia, foi o Comandante Carlos, nos seus tão complicados cálculos nauticos, ter chegado à brilhante conclusão que, estávamos em pleno Oceano Atlântico".

Dia Nº 06: "Tudo dentro da normalidade. Cerca das 11h45m, o gajeiro José Benício, gritou em plenos pulmões do alto do mastro: -

- "Terra à vista !".

Todos se precipitaram para a amurada do veleiro, pondo-o em risco de o fazer virar. O Comandante começou a fazer seus cálculos nauticos, dizendo por fim: -

- "Estamos com a Ilha da Madeira à vista ! É uma ilha que tem 65 Km de comprimento e 24 Km de largura, e foi descoberta em 1418 pelos navegadores Tristão Vaz e João Gonçalves Zarco. Faz parte de um pequeno arquipélago, onde a outra ilha mais importante é a de Porto Santo; as outras pequenas ilhas são desabitadas. Vamos acostar ao cais da sua capital, o Funchal".

O veleiro ficou ancorado na bela marina do Funchal, enquanto toda a tripulação foi almoçar peixe espada preto, fazer algumas compras, entre as quais muitas garrafas do conhecido vinho da Madeira. Depois fizemos uma pequena excursão pela Ilha, que é muito montanhosa e muito pitoresca. A sua flora é variada e opulenta e, o seu clima delicioso pela sua regularidade e amenidade. Já noite cerrada deixámos a Ilha da Madeira, provavelmente, com rumo ao arquipélago de Cabo Verde".

Dia Nº 07: -"O tempo mudou e está hoje muito nevoeiro com mar um pouco encrespado. Mas o calor era intenso e incomodativo. Aproveitando o facto, o Leonino começou a cantar aquele samba brasileiro muito conhecido, de Haroldo Lobo / Nassana – "ALLAH – LA – Ô" : -

"Allah – la – ô, ôôô, ôôô, / mas que calor, ôôô, ôôô / atravessamos o deserto de Saara, / O sol estava quente /

e queimou a nossa cara. / Allah – la – ô, ôôô, ôôô, / Mas que calor, ôôô, ôôô. / Viemos do Egito /

e muitas vezes nós tivemos que rezar / Allah, Allah, Allah, meu bom Allah, / mande água pra ioiô, /

mande água pra iaiá, / Allah, meu bom Allah ... / Mas que calor, ôôô, ôôô ...".

Com esta alegria toda, ninguém se apercebeu que se aproximava sorrateiramente, um sinistro galeão que tinha no mastro a bandeira negra com caveira e tíbias, em branco. –

- "Hó do veleiro ! – gritou uma voz mácula – vamos começar a abordagem e logo a seguir fazer o saque ! Quem comanda o veleiro "Luso – Tramoio" ?. –

-Valentemente, tremendo como varas verdes, o nosso Comandante respondeu-lhe altivamente :- "Este veleiro é comandado por mim – o Comandante Carlos !".

Já a bordo, o capitão pirata identificou-se: -

- "Comandante Carlos, eu sou o Capitão – Pirata, do galeão "O Sete Mares", o Máscara Negra ! Considere-se meu prisioneiro e, imediatamente me diga onde é o vosso cofre de valores ...".

O Carlos deu uma enorme gargalhada ao dizer : -

- "Capitão "Máscara Negra", está a perder o seu tempo, pois, somos portugueses e brasileiros, temos salários de miséria, que mal dá para comer todos os dias, não temos plano de saúde, nem de educação e, muito menos de justiça social ... ".

O pirata não quis acreditar e mandou os seus homens revistar o veleiro. Quando terminou a busca, e foram informar o "Máscara Negra" que nada tinham encontrado, este, muito embaraçado, voltou-se para o Carlos, dizendo-lhe: -

- "Estou devera chocado com esta situação. Vou mandar retirar os meus homens, e peço ao Comandante Carlos que tenha a gentileza de esperar um pouco enquanto vou ao meu camarote".

Pouco tempo depois regressou, desta vez com uma enorme baú cheio de dobrões (moedas) em ouro. Solenemente em pleno convés, começou a falar :-

- "É deveras lamentável que expedições destas não sejam subsidiadas, quer por particulares, quer por entidades oficiais. Eu, o Capitão – Pirata o "Máscara Negra" entrego na pessoa do Comandante Carlos, a minha contribuição ! Tenho dito".

Antes de retirar, deu duas salvas para o ar com as suas pistolas, e apresentou armas com o seu sabre. Em seguida retirou-se. Todos olhavam como que fascinados para as moedas que estavam (ainda) no baú . Tão fascinados estavam que nem deram pelo afastamento do galeão "O Sete Mares". O que tinha acontecido era demais: O patrocinador da excursão era um pirata ! À noite, já com a turma mais calma, todos começaram a cantar a Marcha – Canção de Zé Kety / Pereira Matos : "Máscara Negra": -

"Quanto riso, o quanta alegria, / mais de mil palhaços no salão, / Arlequim está chorando /

pelo amor da Colombina / no meio da multidão. / Foi bom te ver outra vez / está fazendo um ano /

foi no carnaval que passou, / eu sou aquele Pierrot / que te abraçou / e te beijou meu amor ... /

Na mesma Máscara Negra / que esconde o teu rosto / eu quero matar a saudade ... / Vou beijar-te agora /

não me leve a mal / hoje é carnaval ...

Vou beijar-te agora / não me leve a mal / hoje é carnaval ...".

E tão entusiasmados estavam com aquele inesperado subsídio, logo a seguir toda a turma começou a cantar o "Pirata da Perna de Pau" , de Braguinha:

"Eu sou o pirata da perna de pau / Do olho de vidro, da cara de mau. / Eu sou o pirata da perna de pau /

Do olho de vidro, da cara de mau ... / Minha galera / Dos verdes mares não teme o tufão / Minha galera /

Só tem garotas na guarnição / Por isso se outro pirata / Tenta abordagem eu pego o facão /

E grito do alto da popa / Opa ! Homem, não ...".

Dia Nº 08 : - "A nossa rota, provável para Cabo Verde, continua. Depois deste arquipélago, cortamos à direita e então sim, rumaremos até à Baía de Guanabara – Rio de Janeiro (Brasil). Entretanto aproxima-se uma grande trovoada, e o fogo de São Telmo já apareceu no cimo do mastro grande. O pensamento da tripulação já está com Santa Bárbara".

Dias Nº 09 e 10: - "O tempo tem estado muito mau assim como o mar. O Comandante deu-nos estes dois dias de folga (a descontar nas férias anuais). Depois de muito instada pelos colegas, a Lourdes Leite lá levantou a sua greve, prometendo continuar a fazer a limpeza com a eficiência que lhe é reconhecida. Todos os colegas (incluindo o Carlos) respiraram fundo, pensando que tinham chegado a um consenso, em que ambas as partes concordaram, ao fim de muitas horas de trabalho. Isto de política não é para todos".

Dia Nº 11: - "Logo pela manhã recebemos a visita de uma linda deusa, a Afrodita, segundo nos disse, também conhecida por Vénus. Andava à procura de Nepturno. Infelizmente, não pudemos ser úteis a tão linda deusa. O Comandante, sempre gentil para com as damas, sejam deusas ou não, acompanhou-a na visita ao nosso veleiro. Na despedida, perguntou-lhe onde ficava Cabo Verde. A Deusa olhou para o céu como a orientar-se, esticou o seu belo braço e com a sua maravilhosa mão, esticou o dedo indicador, dizendo: -

- "O Carlos está a ver aquele golfinho aos saltos ?. Siga naquela direcção que vai chegar a Cabo Verde.

Como quase sempre, as deusas têm razão. E esta, na fugiu à regra. Horas depois o José Benício gritou do seu lugar de perscrutação:

- "Terra à vista!".

O Carlos quis logo falar à tripulação e todos no convés se sentaram à sua volta. Tossiu, fez pose de pessoa importante, voltou a tossir, e por fim começou a falar de Cabo Verde: -

- "Cabo Verde, consta de dois grupos de ilhas: o de Barlavento, formado pelas ilhas de Santo Antão, São Vicente, Santa Luzia, Sal, Boa Vista, São Nicolau, com os ilhéus Branco e Razo. O grupo de Sotavento, é formado pelas ilhas de São Tiago, Maio, Fogo, Brava, e os ilhéus Rombos. Esta ilhas são de formação vulcânica, todavia, encontram-se lá algumas rochas sedimentares. As maiores altitudes deste arquipélago, são: O Pico do Fogo (3.200 metros de altitude); o Pico Antónia que fica na Ilha de São Tiago (1.460 m) e o monte Coroa na Ilha de Santo Antão (2.300 metros). A Ilha de São Tiago foi descoberta em 1460, pelos navegadores Diogo Gomes e António Nola. A língua oficial é o português, embora, também se fale o crioulo, derivado da língua-mãe. Vamos atracar ao porto de São Vicente, antigo porto carvoeiro, onde nos princípios do século XX, vinham abastecer-se os então barcos a vapor, das escalas de África e da América do Sul. A agricultura é importante nestas ilhas, embora sofra falta de chuva, por vezes, muito prolongadas".

Dias Nº 12 – 13 – 14 : - "Passámos três dias maravilhosos em Cabo Verde. Visitámos quase todas as ilhas, algumas dignas de serem vistas, com locais maravilhosos para umas férias inesquecíveis".

Dia Nº 15 : - "Zarpámos o porto de São Vicente às 00h00m. Fizemos a tal viragem à direita, contando com a ajuda dos ventos Elíseos para chegar ao Brasil. Todos nós estávamos ansiosos de chegar a "Terras de Santa Cruz". Logo pela manhã, toda a tripulação começou a cantar "Aquarela Brasileira" de Ary Barroso: -

"Brasil / meu Brasil brasileiro / meu mulato inzoneiro / vou cantar-te nos meus versos / ô Brasil, samba que dá / bamboleiro, que faz gingá, / ô Brasil do meu amor / Terra de Nosso Senhor / Brasil ! Brasil ! / Pra mim ... Pra mim ...

Ô abre a cortina do passado / tira a mãe preta do serrado / bota o rei gon

go no cangado / Brasil ! Brasil ! / Deixa cantar de novo p trovador / à mercadoria luz da lua / toda a canção do meu amor ... /

Quero ver a "sá dona" caminhando / pelos salões arrastando / seu vestido rendado / Brasil ! Brasil ! / Pra mim ... pra mim ...

Brasil terra boa e gostosa / da moreninha sestrosa / de olhar indiscreto / ô Brasil verde que dá / para o mundo se admirá / ô Brasil do meu amor / Terra de Nosso Senhor. / Brasil ! Brasil ! / Pra mim ... pra mim ...

Ô esse coqueiro que dá coco / oi onde amarro a minha rede / nas noites claras de luar / Brasil ! Brasil ! /

ô oi essas fontes murmurantes / oi onde eu mato a minha sede / e onde a lua vem brincá /

por, esse Brasil lindo e trigueiro / é o meu Brasil brasileiro / Terra de samba e pandeiro / Brasil ! Brasil ! /

Pra mim ... Pra mim ..."

A alegria era contagiante. Toda a turma cantava e dançava o samba. Imaginem que até o Carlos, "o pés de chumbo" danço o samba !".

Dia Nº 16 : - "Fomos surpreendidos por uma voz fortíssima vinda dos fundo do mar, que nos dizia: -

- "Óh pessoal do veleiro "Luso – Tramoio", lancem a âncora que eu quero falar-vos !".

A tripulação ficou aterrada, e mais aterrada ficou quando uma enorme figura surgiu vinda do fundo do oceano. – "Carlos, quem será este "cara" – perguntou aflita a Ana Cecília, o que este lhe respondeu: -"Eu não sei, Ana. Parece-me uma "alma do outro mundo ...".

O Leonino ainda alvitrou que devia uma "alma depenada" a procurar o José Benício, para que este lhe fizesse um seguro de vida e contra todos os acidentes ... A Lourdes Leite, de bloco e caneta nas mãos (aliás, como quase sempre), estava espectada e pronta a escrever o que esta ocorrência ia dar. A alta e hirta figura, com um tridente nas mãos, aproximou-se de nós, ordenando em voz de trovão: -

- "Quero ver a documentação do Comandante e da embarcação !".

O Carlos logo cerrou o semblante, antes de lhe perguntar: -

- "Para já, meu amigo, escusa de gritar pois aqui a bordo ninguém é surdo ! E olhe lá quem é você que se permite querer ver a nossa documentação ? Será um polícia de regular o trânsito no Oceano Atlântico ?".

O homenzinho (zão), já com a voz mais calma, respondeu : -

- "Você não me conhecem ? Sou o deus do mar, filho de Saturno e irmão de Júpiter e de Plutão. No meu palácio do fundo do mar, tenho cavalos com crinas de ouro, que puxam o meu carro sobre as ondas. Já sabem que eu sou ?".

Em uníssono, todos responderam que "NÃO" !. Como ninguém o conhecia, o "homem" continuou: -

- "Sou o deus romano da guerra. Mais tarde fui elevado a deus do mar após a identificação com o grego Posidón". –

- "Já sei quem é este cara, para mais com aquele tridente, não pode deixar de ser senão o Nepturno !" – quase gritou a Ana Cecília, o logo foi corroborado pela Lourdes Leite e restante tripulação. Por fim, o Nepturno sorriu (ou procurou sorrir), pedindo novamente os nossos documentos e se tínhamos algum salvo-conduto para poder navegar naqueles mares. Como salvo-conduto, o Comandante Carlos apresentou-lhe um convite da grande poetisa brasileira, residente na cidade de Rio de Janeiro, para os lados do Bairro das Laranjeiras, que dizia assim: -

"Convite ao Comandante Carlos e a toda a tripulação do veleiro "Luso-Tramoio"

"Eu, Márcia Uebe, conhecida literariamente como Márcia Agrau, publico e mando dar conhecimento a quem de direito, que, fiz o convite em epígrafe, para que esta excursão luso-brasileira visite a Ilha de Paquetá, com suas praias bucólicas, sita em águas calmas, no meio da Baía de Guanabara (Rio de Janeiro), longe da agitação da Cidade Maravilhosa. Devem desembarcar na Praia da Moreninha, nome em alusão a uma novela do mesmo nome, inspirada num romance do século passado. Por ser verdade, faço a minha assinatura acompanhada da impressão digital do dedo indicador da mão direita. Rio de Janeiro, no ano da graça de 2001".

Ao ler esta declaração (e não o salvo-conduto como o Carlos quis que o Nepturno acreditasse), o deus do mar, agradado em face deste escrito da Márcia Agrau que muito admira, logo se prontificou a rebocar o veleiro "Luso-Iramioi" pela sua quadriga de belos cavalos com as crinas em ouro maciço. –

- "Comandante Carlos, vou rebocá-los até perto da costa do Brasil. Depois vocês rumam para onde querem ir – disse o Nepturno, que continuou – é meritório o vosso trabalho que vai dar a conhecer ao mundo lusófono, esta linda ilha, por meio da Divulgação "cá estamos nós".

O Carlos agradeceu e perguntou se ele não lhe podia oferecer uma crina de um dos cavalos. O deus atirou uma gargalhada, dizendo-lhe: -

- "Essa oferta está fora de causa" – alegando que conseguiu aquele ouro no tempo em que ainda não se pagava tantos impostos. A velocidade do reboque era tanta que a turma começou a enjoar, o que obrigou a Ana Cecília a fazer uns bolinhos de bacalhau, para acalmar o estômago. Horas depois o reboque parou e o Nepturno veio fazer as suas despedidas: -

- "Meu amigos, agora é com vocês. Sigam sempre em frente que chegam ao Brasil". Dizendo isto, desapareceu com os seus cavalos nas profundas águas do oceano. Ficámos mais uma vez à mercê dos cálculos nauticos do Comandante. Quando o interpelámos sobre a questão de saber a quantas milhas estávamos do Rio de Janeiro, respondeu laconicamente: -

- "A única coisa que vos posso dizer é que ainda estamos no Oceano Atlântico".

Dia Nº 17 : - "A ansiedade de pisar terra brasileira era enorme; durante a noite, a tripulação quase não dormiu. O vento não era muito forte e o veleiro quase não se movia. –

- "Óh Benício, vê lá se descobres alguma coisa !" – gritava-lhe de vez em quando a tripulação.

Mas ele não perscrutava nada. Até que ... um grito ecoou por toda a embarcação: -

- "Terra à Vista !".

Até que enfim que tinha chegado o grito tão esperado. Logo quiseram saber que tipo de terra o Benício estava a ver: -

- "Olhem, parece-me ser uma ilha ... Pois ... é mesmo uma ilha !".

O Comandante, triunfante virou-se para a tripulação dizendo com orgulho: -

- "Como podem constatar, eu, o vosso Comandante, nunca falho nos meus cálculos nauticos. Estamos a chegar à "Ilha dos Amores" - à Ilha de Paquetá !".

Todos estavam incrédulos, e as perguntas começaram a surgir : -

- "Como podemos estar a chegar a Paquetá, se não passámos pelo Rio de Janeiro? ... nem por Niterói? – não, aqui deve haver engano de cálculo" – dizia a tripulação.

Não foi preciso o Carlos fazer mais cálculos pois aproximou-se uma lancha da Marinha de Guerra do Brasil. Quando lhes perguntámos se estávamos a chegar a Paquetá, deram uma sonora gargalhada. Nós estávamos achegar era à ilha de Fernando Noronha ! Pertencente ao Estado de Pernambuco, a 66 milhas da costa. Serviu de presídio a sentenciados até 1895. Foi ocupada pelos holandeses entre 1635 e 1654". Logo pela manhã devíamos atracar no porto desta ilha".

Dia Nº 18 : - "O Comandante logo pela manhã estava fardado com trajo de gala. Como um homem que tem por vergonha, embora muitas vezes a não utilize, durante a noite fez umas pesquisas sobre Fernando de Noronha. Enquanto o veleiro "Luso-Tramoio" começava a entrar no porto, O Carlos começou a falar desta ilha: -

- "O armador português arrematou, como outros, o contrato do pau-brasil e preparou uma primeira frota para a expedição. Ao comando dessa frota ele terá avistado Fernando de Noronha, a 24 de Junho de 1503. No ano seguinte, D. Manuel l doou-lha. Esta primeira capitania do Brasil tornando-se depois dependência de Pernambuco, revertendo para a Coroa Portuguesa. Nos séculos XVll e XVlll, foi alvo da cobiça de holandeses e franceses, mas foi bravamente defendida pelos portugueses, escravos negros e ameríndios. Quando era para defender a terra, os senhores e os escravos se juntavam, depois todos voltavam ao estatuto anterior... É caso único no mundo. Estávamos a amarar no cais de Vila dos Remédios, e o Carlos continuou: - "A Ilha de Fernando Noronha tem a superfície de 16,20 Km2, e mais 20 ilhotas, o atol das Rocas e os penedos de São Pedro e São Paulo, que forma este pequeno arquipélago. É formado por rochedos vulcânicos de relevo montanhoso, sendo a sua maior altitude de 321 metros. O clima é tropical, tendo o solo muita vegetação arbustiva".

Passámos o dia a conhecer esta ilha e a recolher dados de como podíamos chegar ao Rio de Janeiro".

Dia Nº 19 : - "Como habitualmente, zarpámos do porto de Vila dos Remédios, à noite. Segundo informações recolhidas, o nosso destino estava mais ao Sul (ou para baixo). Encostámos mais à costa e começámos a sentir o ar brasileiro, algo diferente do europeu. Não fosse a ansiedade de chegarmos ao Rio de Janeiro, tudo corria dentro da normalidade".

Dia Nº 20 : - "Quando o Leonino estava a substituir o Benício por impedimento momentâneo, do alto da gávea avistou terra e logo começou a cantar: -

- "Estou a ver Salvador ! Estou a ver Salvador ! estou a ver a Bahia !".

A Lurdes Leite virou-se para o Carlos e perguntou: "Você já foi à Bahia meu bem ? Não ? Então vá !".

O Comandante sorriu, procurou nos bolsos uma folha de papel já muito amachucada e muito dobrada, depois começou a ler: -

- "A toda a tripulação!: Tenho aqui um apontamento do ano de 1900, portanto com 101anos, que fala assim do Estado da Bahia: - "É um dos 20 Estados do Brasil, limitado entre o Oceano Atlântico, e os Estados de Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Piaui, Goiás, Minas Gerais e Espírito Santo. A sua superfície é de 426.427 Km2 e cerca de 2.335.000 habitantes. Sua Capital é Salvador (ou Bahia), tendo outras capitais como :Feira de Santa Anna, Bonfim, Cachoeira, Maragogipe, Itaparica, Camumu, Santo Amaro, Alagoínhas, Jacobina, Nazaré, Ilhéus, Caravelas, Barra do Rio Grande do Sul. O Congresso do Estado compõe-se de duas câmaras: Câmara dos Deputados (42 membros eleitos por dois anos) e Senado (21 membros renovados pelo terço bienalmente). Produz : Tabaco, Cacau, Café, Couros e Peles, etc". O Leonino perguntou ao Carlos se não tinha apontamento mais recente de Salvador, o que ele respondeu que depois de todos terem vestido a farda de gala, e quando o veleiro "Luso - Tramoio" estivesse a entrar no porto, falaria um pouco mais de Salvador. E assim fez: - "Pois é meus amigos, Salvador (Bahia) foi fundada em 1549, é a cidade mais antiga do Brasil. Também foi a sua capital até 1763, sendo a sua diocese a mais antiga, pois, remonta ao ano de 1551. Possui muitas, belas e antigas igrejas, como a da Ajuda (1552), a da Graça (1557), e de Santo António da Barra (1560); o Mosteiro de São Bento (1581, o Convento de São Francisco (1587) e a catedral 1657-1762.

Vamos a terra por umas horas, e não podemos esquecer de telefonar à Márcia Agrau que já deve estar preocupada com a nossa demora".

Dia Nº21: - "Tudo corria dentro da normalidade que se ouviu um enorme trovão, e uma grande e musculosa figura apareceu sobre as ondas, interpelando-nos: -

- "Vocês que vão ao Rio de Janeiro?".

Embora desconfiados, dissemos que sim. Então, a tal figura ergueu os punhos até à altura dos ombros, mostrando a sua musculatura, ao mesmo tempo que ia dizendo: -

- "Estão a ver a minha musculação ? Como vão ao Rio e para impressionar as gatas e os gatos, eu tenho um curso por correspondência para vocês ficarem assim musculosos como eu".

O José Benício algo incrédulo, perguntou-lhe quem era ele, ao que respondeu: -

- "Sou o Adónis ! Quando criança, foi escondido por Afrodite numa caixa que ela entregou a Perséfone para que a guardasse no mundo inferior (Hades). Quando mais tarde, Perséfone se recusou a caixa, Zeus interveio. Assim, eu, poderia passar seis meses por ano junto de Afrodite, e fora afastado do mundo inferior. Como você vêem, tenho um curriculum invejável ! O meu curso ...".

Fazendo um gesto para que ele se calasse, o Carlos respondeu-lhe: -

- "Olhe lá amigo Adónis, não estamos interessados no seu curso, pois, somos muito bem proporcionados fisicamente, mentalmente e até intelectualmente. Mas como você está a envelhecer, como seu amigo, aconselho-o a fazer uma apólice de seguros contra todos os riscos, além do de saúde. José Benício, trate da apólice para este amigo assinar ... ".

Dia Nº 22 : - "Ao fim da tarde, quando o Benício já estava quase a arrumar o óculo de grande alcance, para ir jantar, conseguiu perscrutar algo no horizonte e, logo começou a gritar:-

- "Vitória ! Vitória ! Vitória !".

Logo o Comandante quis saber se o Vasco da Gama tinha ganho. Mas não se tratava de "futebois" mas sim, que tinha perscrutado a cidade brasileira de Vitória. Mais uma vez o Carlos teve de se socorrer dos seus apontamentos para falar desta cidade : -

- "Estamos no litoral do Estado de Espírito Santo, no melhor locar para estabelecimento de um porto em toda a costa que vai desde Salvador ao Rio de Janeiro. O povoamento da região começou por volta de 1535, com a fundação da Vila Nossa Senhora da Vitória, por Vasco Fernandes, donatário da capitania do Espírito Santo. Devido aos ataques constantes dos nativos, a cidade foi mudada em 1551 para a Ilha de Vitória, chamando-se então Vila Nova do Espírito Santo, por oposição à anterior que passou a denominar-se Vila Velha. Sofreu ataques dos ingleses, franceses e holandeses, que atacaram em 1561, 1592, 1625 e 1640, mas não conseguiram a conquista. Esta noite vamos visitar esta cidade. Mas atenção, terá de ser uma visita breve pois, já estão à nossa espera no Rio de Janeiro".

Dia Nº 23 : - "Saímos de Vitória já passava da meia-noite. O vento estava de feição e o mar calmo. O veleiro deslizada com boa velocidade e cada vez o Rio de Janeiro estava mais perto. Pelo menos era o que dava os cálculos nauticos do nosso Comandante ... O Leonino limpava e arrumava o material de enfermagem, o Benício, a perscrutar o horizonte e a contar as folhas de propostas para apólices, fazendo contas aos seguros que, provavelmente ia fazer, e as comissões que ia ganhar; Lourdes Leite passava a roupa a ferro, e, Ana Cecília preparava as refeições. Enquanto o Carlos estava a descansar das fadigas físicas e mentais, causadas pelos seus cálculos nauticos...".

Dia Nº 24 : - " A ansiada hora de chegar ao Rio de Janeiro parecia que nunca mais chegava. O nervosismo era visível nos rostos de toda a tripulação.

- "Terra à Vista !" – gritou o Benício.

Logo todos perguntaram-lhe se era Niterói, o que ele respondeu que não. Era a cidade de Campos!. O Comandante correu logo ao seu camarote regressando com um papel na mão, gritando para a tripulação que se reunisse no convés que ele queria dizer umas coisas. Já todos sentados em redor do chefe, este começou a ler o papel: -

- "Como todos já sabem, estamos a navegar na costa do Estado do Rio de Janeiro. Não podemos parar porque temos pessoas à nossa espera no cais da Praça XV. O povoamento da planície deltaica do rio Paraíba do Sul, iniciou-se no segundo quartel do século XVll. Em breve a região passava abastecer a Baía de Guanabara. Surgiu então, na margem direita do rio Paraíba do Sul, ao Norte da Lagoa Feia, uma pequena povoação que, em 1676, seria elevada a vila com o nome de São Salvador dos Campos. Uma nova actividade veio juntar-se à criação de bovinos – a cultura da cana-de-açúcar. Em 1828 verificou-se a instalação do primeiro engenho a vapor. Em 1875 era inaugurada a linha férrea entre Campos e Macaé, que pouco tempo depois também chegava a Niterói. –"Leonino, encoste mais o veleiro para podermos admirar esta cidade mais de perto" – ordenou o Comandante.

Tivemos pena de não visitar Campos, mas, o nosso destino era a Cidade Maravilhosa de São Sebastião do Rio de Janeiro".

Dia Nº 25 : - " Embora o mais disfarçadamente possível, todos estavam à espera de verem a entrada da Baía de Guanabara. Sabíamos que estávamos a poucas horas do Rio, mas nem o veleiro se movia como queríamos nem as horas passavam. Logo após o almoço vimos um enorme clarão e uma linda figura de mulher, com rosto lindíssimo de feições correctas. Cabelos escuros, belos olhos castanhos, nariz bem desenhado e lábios sensuais e maravilhosamente desenhados. O Comandante Carlos olhou mais atentamente e, quase gritando disse: -

- "É Iemanjá ! Mãe d’água ioruba, no Brasil aculturada com as sereias de origens europeias e as iaras ameríndias! Mas melhor do que eu, a Ana Cecília nos vais falar um pouco sobre Iamanjá". –

E, a nossa amiga começou por tentar escusar-se mas por fim: -

- "Olhem, eu sei pouco sobre esta deusa, mas vou dizer o que sei: Iamanjá – Orixá rainha das águas salgadas, mãe de 15 deuses, símbolo da proscrição e da fecundação. Alimenta-se de mangunzá, caprichosamente temperado (canjica enfeitada de coco ralado, por cima) e também de manjá do céu, de maisena. Serve-se em tigela. Outro alimento que se lhe destina é o cuscuz de tapioca que vulgarmente o chamam de "baiano". Na Bahia servem com bastante preferência o camarão de Iemanjá que outra coisa não é senão uma espécie de fritada de camarões, colocando-se por cima três ovos, inteiros, que são quebrados em cima da fritada. Aprendi isto quando vivi na Bahia".

Mas o Comandante queria saber mais: -

- "Ana Cecília, você também sabe uma lenda referente a esta deusa, não sabe?". –

A Ana sorriu dizendo que de facto, no tempo em que viveu na Bahia tinha ouvido uma lenda que começou a contar: -

- "Do consórcio de Olorun, o Céu, com Odudua, a Terra nasceram dois filhos: Aganjú, a Terra Firme e Iemanjá, as águas. Desposando seu irmão Aganjú, Iemanjá deu à luz a Urungan, o ar, as alturas, o espaço entre a Terra e o Céu. Urungan concebe incestuoso amor por sua mãe Iemanjá e aproveitando a ausência paterna, raptou-a e a violou. Aflita e entregue a violento desespero, Iemanjá desprende-se dos braços do filho, foge alucinada, desprezando as infames propostas de continuação, às ocultas, daquele amor criminoso. Orungan persegue Iemanjá, mas quando está prestes a segurá-la esta cai morta. Desmesuradamente cresce-lhe o corpo e dos seios monstruosos que se espoucam nascem dois rios que adiante se reúnem para formar um lago. E é só isto que sei ...".

À semelhança de quando apareceu, viu-se um enorme clarão e Iemanjá desapareceu, não sei antes nos ter saudado com a sua linda mão direita. Por momentos todos se tinham esquecido que estávamos já perto da Baía de Guanabara".

Dia Nº 26 : - "Alta madrugada passou por nós um barco de pesca e, logo o Leonino que estava ao leme, lhes perguntou se Paquetá já estava perto. Os pescadores disseram que não sabiam o que estava perguntando, o que o nosso amigo os elucidou: -

- "Olhem caras, Paquetá é uma ilha que fica no fundo da Baía de Guanabara, perto de outra ilha de nome Brocoió, a Noroeste da Ilha do Governador".

Os pescadores encolhendo os ombros disseram que não conheciam, mas que fossemos por ali abaixo que encontraríamos Paquetá. Pelos visto, faziam os cálculos nauticos semelhantes ao do Carlos ...". A tenção nervosa aumentava todos queriam chegar o mais breve possível. –

- "Terra à Vista !!! Já estou a perscrutar a margem oriental da Baía de Guanabara !".

Embora sem música, todos começaram a dançar o samba. Não tardava a avistar Niterói. Antes de entrarmos na baía, o Comandante Carlos mandou toda a tripulação vestir a farda de gala. Já se via nitidamente Niterói e, no lado oposto o Rio de Janeiro. Espontaneamente todos começaram a cantar a "Cidade Maravilhosa" de André Filho :-

"Cidade Maravilhosa / cheia de encantos mil / Cidade Maravilhosa / coração do meu Brasil !

Berço do samba e das lindas canções / que vivem n’alma da gente / és o altar dos nossos corações /

que cantam alegremente !

Cidade Maravilhosa / cheia de encantos mil / Cidade Maravilhosa / coração do meu Brasil

Jardim florido de amor e saudade / Terra que a todos seduz ... / que Deus te cubra de felicidade /

ninho de sonho e de luz !

Cidade Maravilhosa / cheia de encantos mil / Cidade Maravilhosa / coração do meu Brasil !"

O Leonino pediu emprestado o óculo de grande alcance ao Benício e começou a perscrutar as praias : -

- "Que garotas estou vendo ! Que material bom ali exposto na areia ! Estou vendo Copacabana ... e mais adiante Ipanema !".

Aqui o Carlos interrompeu para lhe perguntar se estava enxergando a "Garota de Ipanema" de Tom Jobim :-

"Olha que coisa mais linda / Mais cheia de graça é ela a menina / Que vem e que passa /

No doce balanço, a caminho do mar / Moço do corpo dourado / Do sol de Ipanema /

O seu balanço é mais que um poema / É a coisa mais linda que eu já vi passar /

Ah! Porque estou tão sozinho / Ah! Porque tudo é tão triste / Ah! A beleza que existe /

A beleza que não é só minha / Que também passa sozinha / Ah! Se ela soubesse / Qua quando ela passa /

O mundo inteirinho se enche de graça / E fica mais lindo / Por causa do mar".

O Leonino queria saber para a que cais podia dirigir o veleiro "Luso-Tramoio", e logo o Comandante Carlos lhe disse: -

- "Oh ! meu cara, o veleiro vai atracar no cais da Praça XV, onde deve estar, pelo menos a Márcia Agrau a esperar-nos. Aonde vires muitos barcos juntos, deve ser lá mesmo".

Lá no alto do cesto da gávea, O Benício começou a cantar logo secundado por toda a tripulação: -

"Avisa aos navegantes que o Império vem aí / Olha o bicho vai pegar, a poeira vai subir /

É arte é cultura, é talento original / Hoje tem festa no planeta Carnaval

Amor vem ver o mar, / Vem contemplar o meu Rio / Agô Mãe Iemanjá, só de pensar dá arrepio /

Meu Rio tem tanta beleza / E a natureza sempre nos abençoou / Sou carioca da gema, sou resistência /

Sou Império, Sim sinhô / Abriu o Porto Ioiô é porta aberta Iaiá / É o comércio é o progresso da cidade /

E a cidade cresceu o mundo conheceu / o berço da felicidade / Toda ladeira cantou, a Freguesia sorriu /

A velha praça inteira nos aplaudiu.

E assim nasceu a Estiva / O primeiro Sindicato do Brasil / Entre revolta de dor / E um canto negro de fé; /

o nosso povo exportou samba no pé.

Axé minha Guanabara, recanto mais doce do mar / Tão doce que trouxe a indústria /

E fez o turista se apaixonar na Praça Mauá / Hoje a noite é bem mais quente, não é mais /

um inocente arranha-céu, oi / Torre de Babel, que vive em paz / já ancorou mais um navio /

E eu sou confidente desse Cais / Orgulho e Tradição do Rio"

O casal Márcia Agrau e o Engº. Fernando Uebe já tinha sido localizado pelo potente óculo de perscrutação, assim, o veleiro dirigia-se para o local onde os amigos estavam, a grande velocidade. Quando estava a cerca de 40 metros do cais, embateu violentamente com um OZNI (objecto zarolho não identificado), começou logo a meter água e em poucos minutos se afundou. Toda a tripulação teve de nadar para o cais, e o Carlos, como um Camões moderno, nadava só com um braço, enquanto o outro segurava o livro de bordo. Assim que pôs os pés em terra, o Comandante exclamou: -

- "Nunca tinha pensado chegar ao Rio de Janeiro a nado !"
...

FIM DA PRIMEIRA PARTE.

Nota: A segunda parte será passada na Ilha de Paquetá