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A LENDA DA MÃE MULITA - (RGS) - (Colab. Sarita Barros)

In MITOS E LENDAS DO RIO GRANDE DO SUL – Antônio Augusto Fagundes

          A pequena Mulita é um dos bichos mais bonitos que Deus Nosso Senhor botou nos campos gaúchos. E ninguém deve matar a Mulita, porque ela foi abençoada por Nossa Senhora em pessoa.
          Foi assim: quando o rei Herodes mandou matar tudo que era nené de menos de ano, porque soube que havia nascido o Rei dos Reis, a Sagrada Família teve que fugir para o Egito. São José, que era carpinteiro, fez um carrinho, botou nele o Menino Jesus, pegou Nossa Senhora e se foram embora, com medo dos soldados do rei.
          Lá pelas tantas, o Menino teve fome e pegou a chorar, mas Nossa Senhora tinha pouco leite. Ela, então, chamou a Mulita:
          — Mulita, me dá uma gota do teu leite para o meu Filho!
          A Mulita deu, mas era pouco e o Menino continuou a chorar.
          — Mulita, chama as tuas filhas e que cada uma dê uma de leite para o meu Filho!
          — Nossa Senhora, a minha ninhada é grande, mas nela as filhas são poucas.
          Mesmo assim ela chamou as suas filhas e cada uma deu uma gotinha de leite para matar a fome do Menino Jesus, que parou de chorar.
          A Sagrada Família continuou a fugir, mas olhando para trás São José viu a poeira levantada pelos cascos dos cavalos dos soldados do rei. E o carrinho com o Divino Piazinho não andava depressa porque a Virgem e seu marido estavam mui cansados.
          Vai então Nossa Senhora chamou a Mulita outra vez:
          — Mulita, ajuda a empurrar o carrinho do meu Filho!
          A Mulita ajudou, mas a sua força não é muita. Outra vez Nossa Senhora falou:
          — Mulita, chama os teus filhos para empurrarem o carrinho do meu Filho!
          — Nossa Senhora, a minha ninhada é grande, mas nela os filhos são poucos.
          Mesmo assim chamou os seus filhos e todos empurrando o carrinho conseguiram escapar dos soldados do rei. Então agradecida, Nossa Senhora disse:
          — Mulita, em homenagem ao leite das tuas filhas e força dos teus filhos, daqui por diante na tua ninhada vai ter só fêmea ou só macho.
          E assim é, até hoje.


A LENDA DO CORVO E DA TARTARUGA - RSG - (Colab. Sarita Barros)

In MITOS E LENDAS DO RIO GRANDE DO SUL – Antônio Augusto Fagundes

          No começo, o Corvo era um bicho branco e vivia do mesmo jeito que os outros bichos. A Tartaruga, muito amiga dele, tinha o caso redondinho, inteiro.
          Um dia todos os bichos ficaram sabendo que Nossa Senhora dava uma festa no céu, O Corvo logo disse que ia, porque sabia voar e a Tartaruga implorou ao amigo para ir junto.
          Mas como? — quis saber o Corvo.
          — Eu monto nas suas costas, Compadre Corvo.
          O Corvo não gostou, mas ficou quieto. No dia da festa, tanto a Tartaruga incomodou, que terminou indo, mesmo, montada no lombo do amigo e compadre. Foram e se divertiram muito com os outros bichos.De manhazita, voltaram. A Tartaruga montou de novo nas costas do Corvo, que estava louco de preguiça e se vieram para a terra. No meio da descida, o Corvo começou a sacudir o lombo, com força e a Tartaruga, coitada, terminou caindo. E se veio abaixo, virando cambota. Ornando as pedras que cresciam lá embaixo a pobre dizia:
          — Abre-te, pedra, senão eu te racho! E se lamentava:
          — Léo-léo, léo-léo, eu não vou mais à festa no céu!... Mas as pedras não se abriram e quem se rachou foi ela, quebrando-se toda.
          Nossa Senhora, que tinha visto tudo, remendou a Tartaruga, que ficou com o casco cheio de pedaços colados uns nos outros e condenou o Corvo, que continuou a nascer branco, a ficar preto quando grande, a só sentar em árvore seca e a só comer carne podre...


A LENDA DO BOITATÁ - RGS - (Colab. Sarita Barros)

In MITOS E LENDAS DO RIO GRANDE DO SUL – Antônio Augusto Fagundes

          Em tempos mui antigos, que as gentes mal se lembram, houve um grande dilúvio, que afogou até os cerros mais altos. Pouca gente e poucos bichos escaparam — quase tudo morreu.
          Mas a cobra-grande, chamada pelos índios de Guaçu-boi, escapou. Tinha se enroscado no galho mais alio da mais alta árvore e lá ficou até que a enchente deu de si e as águas empeçaram a baixar e tudo foi serenando, serenando...
          Vendo aquele mundaréu de gente e de bichos mortos, a Guaçu-boi, louca de fome, achou o que comer. Mas — coisa estranha! — só comia os olhos dos mortos.
          Diz-que os viventes, gente ou bicho, quando morrem guardam nos olhos a última luz que viram. E foi essa luz que a Guaçu-boi foi comendo, foi comendo... E aí, com tanta luz dentro, ela foi ficando brilhosa, mas não de um fogo bom, quente e sim de uma luz fria, meio azulada.
          E tantos olhos comeu e tanta luz guardou, que um dia a Guaçu-boi arrebentou e morreu, espalhando esse clarão gelado por todos os rincões. Os índios, quando viam aquilo, assustavam-se, não mais reconhecendo a Guaçu-boi. Diziam, cheios de medo: "Mboi-tatá! Mboi-tatá!", que lá na língua deles queria dizer: Cobra de fogo! Cobra de fogo!
          E até hoje o Boitatá anda errante pelas noites do Rio Grande do Sul. Ronda os cemitérios e os banhados, de onde sai para perseguir os campeiros. Os mais medrosos disparam, mas para os valentes é fácil: basta desapresilhar o laço e atirar a armada em cima do Boitatá. Atraído pela argola do laço, ele se enrosca todo, se quebra e some.


A LENDA DO NEGRINHO DO PASTOREIO - RGS - (Colab. Sarita Barros)

In MITOS E LENDAS DO RIO GRANDE DO SUL – Antônio Augusto Fagundes

          No tempo dos escravos, havia um estancieiro muito ruim, que levava tudo por diante, a grito e a relho. Naqueles fins de mundo, fazia o que bem entendia, sem dar satisfação a ninguém.
          Entre os escravos da estância havia um negrinho, encarregado do pastoreio de alguns animais, coisa muito comum nos tempos em que os campos das estâncias não conheciam a cerca de arame: quando muito alguma cerca de pedra erguida pelos próprios escravos, que não podiam ficar parados, para não pensar em bobagem... No mais, os limites dos campos eram aqueles colocados por Deus Nosso Senhor nos, cerros, lagoas.
          Pois de uma feita o pobre negrinho, que já vivia sofrendo as maiores judiarias às mãos do patrão, perdeu um animal no pastoreio. Prá quê! Apanhou uma barbaridade atado a um palanque e depois, cai-caindo, ainda foi mandado procurar animal extraviado. Como a noite vinha chegando, ele agarrou um toquinho de vela e uns avios de fogo, com fumo e tudo e saiu campeando. Mas nada! O toquinho acabou, o dia chegando e ele teve que voltar para a estância.
          Então foi outra vez atado no palanque e desta vez apanhou tanto que morreu, ou pareceu morrer. Vai daí o patrão mandou abrir a "panela" de um formigueiro e atirar lá dentro, de qualquer jeito, o pequeno corpo de negrinho, todo lanhado de "laçado e banhado em sangue.
          No outro dia, o patrão foi com a peonada e os escravos ver o formigueiro. qual não é a sua surpresa ao ver o negrinho do pastoreio vivo e contente, ao lado do animal perdido.
          Desde aí o Negrinho do Pastoreio ficou sendo o achador das coisas extraviadas. E não cobra muito: basta acender um toquinho de vela ou atirar num canto qualquer um naco de fumo.


A LENDA DA SALAMANCA DO JARAU - RGS - (Colab. Sarita Barros)

In MITOS E LENDAS DO RIO GRANDE DO SUL – Antônio Augusto Fagundes

          No tempo dos padres jesuítas, existia um moço sacristão no Povo de Santo Tomé, na Argentina, do outro lado do rio Uruguai. Ele morava numa cela de pedra nos fundos da própria igreja, na praça principal da aldeia.
          Ora, num verão mui forte, com um sol de rachar, ele não conseguiu dormir a sesta. Vai então, levantou-se assoleado e foi até a beira de uma lagoa refrescar-se. Levava consigo uma guampa, que usava como copo.
          Coisa estranha: a lagoa toda fervia e largava um vapor sufocante e qual não é a surpresa do sacristão ao ver dágua a própria Teiniaguá, na forma de uma lagartixa com a cabeça de fogo, colorada como um carbúnculo. Ele, homem religioso, sabia que a Teiniaguá — os padres diziam isso! — tinha partes com o Diabo Vermelho, o Anhangá-Pitã, que tentava os homens e arrastava todos para o inferno. Mas sabia também que a Teiniaguá era mulher, uma princesa moura encantada jamais tocada por homem. Aquele pelo qual ela se apaixonasse seria feliz para sempre.
          Assim, num gesto rápido, aprisionou a Teiniaguá na guampa e voltou correndo para a igreja, sem se importar com o calor.
          Passou o dia inteiro metido na cela, inquieto, louco que chegasse a noite. Quando as sombras finalmente desceram sobre a aldeia, ele não se sofreu: destapou a guampa para ver Teiniaguá. Aí, o milagre: a Teiniaguá se transformou na princesa moura, que sorriu para ele e pediu vinho, com os lábios vermelhos. Ora, vinho só o da Santa Missa. Louco de amor, ele não pensou duas vezes: roubou o vinho sagrado e assim, bebendo e amando, eles passaram a noite.
          No outro dia, o sacristão não prestava para nada. Mas, quando chegou a noite, tudo se repetiu. E assim foi até que os padres finalmente desconfiaram e numa madrugada invadiram a cela do sacristão. A princesa moura se transformou em Teiniaguá e fugiu para as barrancas do rio Uruguai, mas o moço, embriagado de vinho e de amor foi preso e acorrentado.
          Como o crime era terrível — contra Deus e a Igreja! — foi condenado a morrer no garrote vil, na praça, diante da igreja que ele tinha profanado.
          No dia da execução, todo o Povo se reuniu diante da igreja de Santo Tomé. Então, lá das barrancas do rio Uruguai a Teiniaguá sentiu que o seu amado corria perigo. Aí, com o todo o poder da sua magia, começou a procurar o sacristão abrindo rombos na terra, uns valos enormes, rasgando tudo. Por um desses valos ela finalmente chegou à igreja bem na hora em que o carrasco ia garrotear o sacristão. O que se viu foi um estouro muito grande, nessa hora, parecia que o mundo inteiro vinha abaixo,
          houve fogo, fumaça e enxofre e tudo afundou e tudo desapareceu de vista. E quando as coisas clarearam a Teiniaguá tinha libertado o sacristão e voltado com ele para as barrancas do rio Uruguai.
          Vai daí, atravessou o rio para o lado de cá e ficou uns três dias em São Francisco de Borja, procurando um lugar afastado onde os dois apaixonados pudessem viver em Paz. Assim, foram parar no Cerro do Jarau, no Quaraim, onde descobriram uma caverna muito funda e comprida. E lá foram morar, os dois.
          Essa caverna, no alto do Cerro, ficou encantada. Virou Salamanca, que quer dizer "gruta mágica", a Salamanca do Jarau. Quem tivesse coragem de entrar lá, passasse pelas 7 Provas e conseguisse sair, ficava com o corpo fechado e com sorte no amor e no dinheiro para o resto da vida.
          Na Salamanca do Jarau a Teiniaguá e o sacristão se tornaram os pais dos primeiros gaúchos do Rio Grande do Sul.
          Ah, ali vive também a Mãe do Ouro, na forma de uma grande bola de fogo. Às vezes, nas tardes ameaçando chuva, dá um grande estouro numa das cabeças do Cerro e pula de uma elevação para outra. Muita gente viu!