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Lendas do Roncador (Crônica ) - Vanderli
Medeiros
Fim de tarde no Roncador. Quaçi, uma índia Xavante, caminhava pela mata escutando o
canto da passarada e nem percebe que à noite ia chegando, quando dá por si, a noite cai
e está armando uma grande tempestade.
Ela se vê pedida. Caminha a esmo
orientando-se pelo barulho familiar da mata e da bicharada. Está ainda assustada
lembrando as histórias contadas pelo velho pajé sobre um homem branco feiticeiro que um
dia apareceu por essas bandas e sumiu em uma fenda no meio da Serra do Roncador onde dizem
existir uma cidade perdida de nome Atlântida.
Este tal homem branco de nome
Fawcet, chegou segundo o pajé do outro lado do oceano, um local de nome Inglaterra. Um
tipo estranho falava uma língua enrolada e tinha hábitos muitos diferentes dos de sua
tribo. Vinha em busca da passagem para essa tal cidade subterrânea. Quando chegou entre
nós trazia em si um misto de arrogância e impetuosidade, não entendia os hábitos e a
cultura local muito bem, isso causou grandes transtornos.
Nessa época existia na aldeia uma
bela índia de nome Aldenora de apenas 16 anos, prometida em casamento ao filho do pajé.
Quando Fawcet bota os olhos sobre a índia sente-se hipnotizado com essa beleza selvagem.
Porém, se contém, mas ambos
trocam olhares de agrado.
Um dia estava Aldenora passeando as
margens do Rio das Mortes quando Fawcet aparece vindo de uma clareira, parecia que ele se
materializara de repente. Aldenora sente o coração dar saltos. Ambos se olham por
minutos, assim com encantamento.
Sabem que não devem, mas o
magnetismo que ambos depreendem faz com que tudo mais se perca.
E ali as margens do rio amam-se com
paixão. Entrega a ele sua pureza de menina moça.
E continuam a encontrar-se assim
todas as tardes as margens do grande rio.
Um dia seu noivo desconfiado de
suas saídas todas as tardes segue Aldenora, ela tão apaixonada nem percebe que é
seguida e mais uma vez encontra-se com Fawcet.
Quando trocam as primeiras
carícias seu noivo aparece e chama o jovem mancebo a luta, Aldenora tenta impedir, teme
pela vida do branco que a enfeitiçara, é detida por ele que tenta dialogar com o jovem
guerreiro índio. Cheio de ira ele da uma bordunada em Fawcet que cai pesadamente.
Aldenora corre em seu socorro e
quando se abaixa perde os sentidos por um golpe na cabeça.
Quando acorda chama por seu amor
branco e nada de o ver, está em uma oca cercada por índios curumins suas amigas. Elas
nada dizem sobre o paradeiro de seu amado. Mas ela sente que ele foi morto pelos
guerreiros da tribo.
Aldenora por dias e meses vaga as
margens do Rio das Mortes a procura de Fawcet, ninguém sabe dele dizem que ele encontrou
a passagem para a cidade perdida e partiu prometendo voltar e buscá-la.
Os meses passam e Aldenora
percebe-se a espera de um filho dele, a espera é angustiante, ela chora e grita seu nome,
tendo apenas o eco do rio como resposta.
E assim a jovem e bela índia vai
definhando, quando chega o dia de dar a luz a seu filho, ainda sentindo as dores do parto
corre para as margens do rio, quer ter seu filho lá onde o concebeu com muito amor.
E com lágrimas nos olhos dá o
grito de dor que parte seu ventre e faz vir ao mundo seu filho, branco como o pai.
A aldeia que ainda dormia acorda
com seu grito e é quando algumas índias corre ver o que passa e, segundo a lenda, vêem
Fawcet envolto em uma nuvem de fumaça branca com seu filho nos braços.
Assustadas fogem e quando retornam
com os homens da tribo nada vêem somente Aldenora morta estendida ao chão e nada do
bebe. Entretanto juram que da mata podia ouvir o choro de Fawcet e do bebe que ia sumindo
até onde há uma fenda que daria a cidade perdida de Atlântida. Local temido e venerado
desde então pelos indígenas.
Essa lenda fez com que todos
tivessem receios de passear por aquelas bandas onde esse trágico amor ocorreu e onde
seria a entrada para tal cidade subterrânea.
E com os nervos em frangalhos com
medo de encontrar o tal mancebo branco e o fantasma de Aldenora que dizem viver a vagar
por essas bandas a procura da tal entrada para a cidade perdida onde vive seu amado, está
para desmaiar quando um raio rasga a floresta e em seu clarão surge Fawcet com um bebe
nos braços acenando para ela.
Sua visão é tão diáfana que ela
fica assim estática contemplando a miragem, perde os sentidos...
Quando acorda está em sua oca
cercada por olhares indagativos e familiares.
Ainda tenta balbuciar algo, mas a
impedem, pedem que durma para refazer-se. Obedece e dorme com um sorriso nos lábios e
sonha com o belo mancebo Fawcet que vira na floresta, pensando em quando se restabelecer
ir a sua procura.
Novamente Fawcet enfeitiçara mais
uma jovem índia Xavante...E a história continua.... A lenda também... |